sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O último portal fazendo festa



Sábado que vem tem festa, aqui em São Paulo, pelo lançamento do Portal Fahrenheit, o último da série. Tenho a honra de fazer parte desse time de autores de pira no gênero ficção científica.

Aqui o convite para o evento que reunirá autores de todas as revistas da série. Apareça. Vai ser um prazer. Clique sobre a imagem para que ela cresça.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

As várias faces de Laura (e alguns catados)



Tive a honra de ser entrevistada no Escritablogue, onde pude falar um pouco de mim e do meu trabalho. A edição mostra um apanhado dos meus textos em prosa & verso.

Quem quiser conhecer este blogue incrível basta clicar aqui:

http://escritablog.blogspot.com/search/label/laura%20fuentes

É a volta da Revista Escrita, editada pelo escritor, jornalista e professor Wladyr Nader, que abalou o mercado editorial nos anos 80 e 90 com a editora de mesmo nome, e que, agora em formato digital, promete barbarizar.



(*) A arte é do francês Jan Fabré

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Kafka é pouco


— Lamento, seu documento não saiu porque a senhora está desaparecida.
— Desaparecida? Como assim?
— Aqui consta que alguém comunicou à policia o seu desaparecimento. Sendo assim, não podemos fornecer um novo RG.
— (Atônita e respirando fundo) Olha meu rapaz, eu sou eu, juro, estou aqui sã e forte, vim com minhas próprias pernas até este Poupatempo que dizem que, de tão eficiente parece coisa de primeiro mundo, pago as minhas contas, vivo nesta cidade desde que nasci e, que eu saiba, embora muitas vezes eu tenha desejado ardentemente, jamais desapareci assim, sem mais nem menos.
— Sei disso, estou vendo. Mas não posso fazer nada. A senhora deve se dirigir ao DHPP com o documento original e ver o que está acontecendo, resolve tudo e então volta aqui — disse o rapaz no estilo funcionário público entediado, crachá ostensivo no peito.
— Isso é tão surreal que me soa como um conto do Kafka...
— Hã?
— Deixa pra lá. Só me dê o endereço direitinho e me ensine como chegar lá, por favor, moço.

Foi aí que lembrei que, justamente porque ia pegar o novo RG, eu não tinha levado nenhum outro documento original na bolsa. Assim, precisei voltar para casa. No caminho, ía tentando controlar o pânico de precisar ir para o bairro da Luz. Quem mora em São Paulo entende o drama que isso representa devido ao entorno repleto de prostituição e de gente consumindo crack. Ah, detalhe, chegando no meu prédio, os caras da manutenção estavam consertando o elevador. Não acreditei: tive que subir (e descer) os nove andares na raça. E por dentro blasfemava, tem dia que já nasce torto.


Pesquisando na internet, descobri o ônibus que me deixaria bem na esquina do prédio da Polícia Federal e para lá fui. Mas, quando parei do outro lado da rua, não pude evitar de sentir um calafrio ao observar aquele prédio grande, antigo e imponente. Gente da minha geração, depois de todos aqueles anos duros, tem horror a tudo que se relaciona com polícia! Mas fazer o que? Puxei o ar, estufei o peito, me enchi de atitude e entrei. No balcão de informações, um senhor me informou que o Setor de Desaparecidos ficava no sétimo andar. O arrepiou piorou quando desci no imenso hall do andar indicado e uma placa na parede explicava o significa DHPP : Divisão de Proteção à Pessoa. Proteção?


Não sabia para que lado ir naquele emaranhado de corredores muito largos e salas imensas e vazias, só uma funcionária lixando as unhas aqui, outra papeando com a comadre pelo telefone ali (conta e salário pagos pos nós, contribuintes, claro). Enquanto perambulava perdida por ali, ía pensando quanto desperdicio de espaço. Com a carência educacional nesta cidade, melhor seria instalar uma escola alia. Comecei a me perguntar: cadê as dezenas de delegados que a gente vê toda hora na TV se gabando de seus feitos? Estariam todos agora no Datena? Se eles são assim tão eficientes e tão pouca gente precisa se proteção para que tanto espaço? Até que finalmente alguém me deu atenção e disse: "Ah, os Desaparecidos é ali, a segunda porta dobrando à esquerda".


A tal porta abria para um amplo conjunto de salas sem viva alma. Tudo vazio, exceto uns dois ou três paletós pendurados em algumas cadeiras. Clássico. Concentrando o olhar, vi que havia um rapaz lá no fundo numa sala às escuras. Sinistro. Só eu e ele por ali. Bati numa mesa fazendo barulho, acenei, ele respondeu ao aceno e, cinco minutos depois, enfim se dignou a sair do escurinho (ele também bem escurinho, cabelo rasta) e veio me atender. Contei a história ao cavaleiro solitário que me chamou a sentar frente a sua mesa e logo foi digitando os meus números no computador.


— Humm, vejo aqui que tem um B.O de 1998... o que a senhora estava fazendo em 98? — indagou, sério e com um certo tom de mistério.
— 98? Sei lá, já nem me lembro — respondi
— É, mas alguém declarou seu desaparecimento nessa data. Terá sido durante alguma viagem?
Segurei para não dar risada. Ele parecia aquelas videntes que ficam olhando para a bola de cristal, vêem coisas, vão disparando frases e pouco olham nos olhos da gente.
— Ora, eu viajo constantemente, o trabalho me obriga. Vez por outra também saio em férias Mas, que eu saiba, ninguém jamais achou que eu tivesse sumido de vez.... Só se foi algum ex-namorado saudoso — aventei, sorrindo. Imagina só, eu fazendo gracinhas dentro da Polícia Federal. Agora, susto passado, nem eu mesmo acredito.
— Vai ver ele tava com medo que a senhora não voltasse — brincou.
Para encurtar a história, Alipio (esse o seu nome) descobriu que existe um homem em São Paulo, um tal de César Tertuliano não sei do que (eu achei o nome do caramba), que tem um número do RG idêntico ao meu, com a exceção de um “dígito X”. E foi o Tertuliano quem desapareceu naquela data, não eu. O sistema deve ter se confundido, sei lá.


Naquele momento, enquanto o rapaz lutava para tirar a tal informação do meu prontuário, divaguei um pouco ao observar como ele, um simples funcionário público do baixo escalão tinha acesso e o poder de modificar as coisas, colocar ou retirar observações de qualquer ficha documental, sem qualquer protocolo, documento ou testemunha que atestasse essa interferência, e como deve ser assim que a malandragem prolifera. Ah, o baixo clero (vide o episódio recente do vazamento do imposto de renda de alguns tucanos). Já delirando, pensei, poxa, não seria bacana também se Receita Federal também me desse por desaparecida desde 98? Quanto imposto eu poderia ter economizado esse tempo todo?


Depois de alguns minutos totalmente em silêncio, apenas teclando, Alipio disse:
— Pronto, baixei a informação do sistema. Mas ainda consta aqui que em 2001 seu RG foi extraviado...
— Ah, sim, foi quando me furtaram a carteira, mas na época fiz B.O e tirei um novo — respondi pensando caramba, esses caras sabem de tudo — Mas isso pode atrapalhar, moço?
— Acredito que não. Pode voltar ao Poupatempo que eles lhe entregarão o documento na hora.
— Poxa, muito obrigado — agradeci com um aperto sincero de mão.
—Agora namorado nenhum mais pode dizer que não a encontrou — respondeu Alipio, mostrando que tinha aderido à brincadeira.


Saí da Luz aliviada, me enfiei nas entranhas do metrô, ressurgi na superfície da estação Sé ensolarada, certa de que eu não estava mais na lista dos desaparecidos desta nação. Retornei ao Poupatempo e, em 40 minutos, saía de lá com meu RG fresquinho, foto recente revelando novas rugas que, para mim, são a comprovação que o tempo passa, mas Macunaíma continua rei por aqui.


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PS: Ah, nada a ver, mas só pra constar, fui pesquisar e descobri que Tertuliano nasceu de família pagã, e tornou-se um líder cristão rebelado que criou sua própria religião por volta do ano 200 d.C. E provocou muita polêmica por desmentir algumas crenças, entre elas a virgindade de Maria. É mole?

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Contagem progressiva



Desde criança, fico melancólica nos dezembros e nem sei explicar bem por que, mistura de sentimentos. A cidade enfeitada de luzes, vermelho, verde e dourado encanta, mas o ritmo que ela ganha me assusta. É uma agitação sem propósito, todos correndo rumo a um final e um recomeço carregado de esperança. E começa uma contagem regressiva angustiada. Ou será progressiva?


Amigos que não se vêem há tempos exigem um encontro “antes que o ano se acabe”. Almoços, jantares, drinques. Como zumbis seguindo uma sina, as pessoas saem às ruas aumentando o tráfego, brigando por vagas, por taxis, metrô e ônibus lotados, comércio apinhado, gente se digladiando por produtos ou a atenção dos vendedores exaustos. Listas enormes de presentes e lembrancinhas. É preciso suar em bicas para encontrar as melhores ofertas, não pode faltar para ninguém. Todo ano é igual: saldo estourado, corpo massacrado. Tantas confraternizações aumentam o estresse, mas o que importa é celebrar. Mas celebrar o que mesmo?


É adrenalina demais até que o ano recomece do um. E então, vem a delicia: todo janeiro é um mês morno, sossegado. Na medida para se procurar aqueles de quem se gosta de verdade, e marcar um encontro gostoso, com direito a muita troca, poder se ouvir, se escutar, todos mais disponíveis e doidos para estrear modelos e acessórios ganhos no Natal, contar as novidades.


Por isso que há algum tempo quando me convidam para encontrinhos de final de ano solto sempre um “a gente se vê em janeiro, quando tudo se acalmar”. E funciona, posso garantir. Viro um motivo a menos de estresse natalino, e mantenho os amigos que conquistei e faço questão de manter.


Há algum tempo aprendi a “limpar o terreno”. Me afasto dos tristes por opção, no eterno papel de vitimas (e que teimam em manter a nuvenzinha de estimação) para poder me dedicar e cuidar das amizades verdadeiras, como se fossem plantas delicadas. Uma simples questão de escolha. A frase abaixo diz tudo:

"Hay personas que transforman el sol en una simple mancha amarilla. Pero hay también quienes hacen de una simple mancha amarilla el proprio sol." (Pablo Picasso)

Desejo a todos os que acompanham este blogue, um 2011 muito amarelo!

domingo, 26 de setembro de 2010

Um número


Talvez por ela ser tão dadivosa, por gostar mesmo da coisa, ou quem sabe pela adoração desde sempre de conjugar os verbos variar e trepar, que nenhum dos amigos conseguiu entender quando Suely (com ypsilone como ela faz questão) começou a se envolver com Antenor, tido por todos como um viado enrustido.


Não que o fato dele ser estilista de vestidos de noiva necessariamente fosse um atestado de bichisse. Era mais pelos trejeitos, o jeito de pegar na xícara, o modo de caminhar de coxas unidas, o ouvido sempre aberto a ouvir confidências logo transformadas em fofocas. No mais ele era macho de carteirinha, se envolveu com muitas mulheres, tinha até sido casado, um par de filhos, até avô já era.


Uns dez anos mais velho que ela, Antenor era ainda elegante e fazia bonito quando acompanhava Suely nas festas, mesmo ela sendo uma trintona loiraçabelzebu cheia de curvas e peitos fartos estourando do decote infalível e matador. Um animal sexual. Antenor só não fazia bonito na cama. Para as amigas mais próximas, a maquiadora confidenciava que sexo ali era algo mais de intenção do que de ação propriamente dita. Tamanho pouco, dureza nada e, pior, carência total e absoluta de generosidade para com a próxima. Língua só para beijos apaixonados depois de alguns whiskies ou outros aditivos. Para piorar, as mãos de Antenor tão hábeis nos croquis, tecidos e bordados eram nada inteligentes no quesito “dar prazer”.


Às amigas mais intimas ela confidenciava: sem a pílula azul ele sequer conseguia o ponto mínimo para poder gozar, e isso só na punhetinha. Penetrar nela, nem pensar. Homem avariado aquele.Quando ele ia embora, restavam à loira as pregas machucadas, as costas doloridas e um cansaço provocado pelo esforço.


O que mais intrigava a todos é que, até então, a vida da moça tinha sido de farto curriculum. Em qualquer homem, ela sempre via possibilidade de um pino ereto: o garoto do farol, o PM do posto, o neguinho do pagode, o aposentado da fila do banco, o marido das vizinhas e até a sapata massagista, de tudo ela conferiu e se fartou. O que ligava essa mulher tão erótica e sexualmente resolvida a esse homem? todos se perguntavam. Mas com o Antenor, de alguma forma Suely se aquietou. Só podia ser amor, imaginavam.


Até que, certa noite, ela se viu num cenário igual ao daquele livro A Fogueira das Vaidades (que até rendeu filme, mas muito ruim). Foi quando depois de deixar Antenor no aeroporto (ele ia provar uma noiva em Mato Grosso, passagem e hospedagem por conta do pai da garota, fazendeiro podre de rico), voltando para casa, Suely se perdeu, entrou no viaduto errado, e acabou entrando numa região erma e sinistra.


Míope e atrapalhada no volante, Suely não achava saída e cada vez enfiava-se mais favela adentro, onde tudo ficava mais e mais escuro. Foi quando ela ouviu um barulho de moto. A princípio se encheu de medo. Mas, sem alternativa e tremendo muito, abriu o vidro do carro. Como é que eu saio daqui perguntou ao neguinho. Vendo aquele monumento farto, cabelos de chapinha ao vento, bocão desenhado a pincel e os peitos estourando na blusinha, ele bem que tentou manter a compostura e ensinou direito como voltar para a marginal.


Obrigada, disse ela enquanto tentava memorizar as coordenadas. Primeira à direita, terceira à esquerda. Mas bem quando esperava abrir o farol, de novo ela ouviu aquele som de motor. Olhou para o lado e lá estava a moto, emparelhada com sua perua.


Cara, você é tão linda que eu tive que voltar. Você me deixou com tesão. Olha só estado que eu tou. Foi quando Suely viu aquilo que há muito não via. Um imenso volume-homenagem-promessa-do-paraiso mal contido dentro do jeans, e um calor queimou seu ventre. Um braseiro. Jovem demais e franzino ainda, ele era meio feinho, é certo, mas os atributos eram excelentes, fora a evidente e inegável vontade política.


Suely tremeu na base, afinal nunca foi de fugir da raia. Vamo pra qualquer lugar, moça. Me leva pronde você quiser. Pelo amor de Deus. Deus. Ele falou Deus... Como ela queria provar daquilo de novo! Ela tentou cair fora, se convencer que aquilo era correr perigo demais. Argumentou que era tarde, que a mãe a esperava em casa e tal. Mas ele insistiu. Pediu até pra ela apalpar. Jurava que era um tesão que nunca sentira antes. Ela só pôde acreditar.


Com medo, mas dividida, Suely então resolveu ganhar segundos. Respirou fundo. Propôs trocarem telefones. Outro dia dariam jeito naquilo, ela jurou. Primeiro, pediu o telefone dele que anotou com o lápis de olho nas costas da mão. E então, devagarzinho, foi dizendo seu número. De sua boca foram saindo, um a um, todos os digitos, verdadeiros. Exceto o último.


Foi a noite em que Suely provocou um enfarto em seu vibrador, já tão usadinho. Estava mesmo na hora de aposentá-lo com todas as honras por serviços prestados. Mas primeiro precisava comprar outro strap-on, mais poderoso. Antes do Antenor voltar.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Vem aí o "Mecanismos Precários"



E graças apoio de todos os amigos e mentores, chego ao meu terceiro livro. Trata-se da antologia de contos "Mecanismos Precários", organizada por Nelson de Oliveira e Claudio Brites para a editora Terracota, que será lançada no sábado 11 de setembro (em alusão à data, um lançamento "bombástico"), com direito a coquetel e show de jazz.

São textos de colegas da pós graduação Criação Literária da Unicsul em parceria com a editora Terracota e de alguns dos nossos mestres, escritores já consagrados. Vejam só que time! Um privilégio e uma honra estar ao lado deles. Espero contar com a presença de todos vocês.

(*) atenção, não é este próximo sábado, é no outro, dia 11 de setembro!

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

O corpo fala



Ninguém ignora que a poesia é uma solidão espantosa,
Uma maldição de nascença, uma doença da alma.
(Jean Cocteau)


Quando a alma entristece, o corpo adoece.
E quando a boca cala, o corpo fala.
O nariz escorre quando não se permite chorar.
A garganta fecha
quando não consegue falar das aflições
A ansiedade impede de respirar.
O estômago arde quando a raiva surge e não consegue sair
O diabetes invade quando a solidão dói
A culpa adoece os rins.
Doenças pélvicas surgem de relacionamentos corrosivos
O corpo engorda quando a insatisfação aperta
E perde peso quando acaba o interesse.
Sentimentos negativos trazem a dor de cabeça que deprime
A alergia é fruto da intolerância e do perfeccionismo.
As unhas quebram quando se perde a força
O peito aperta quando o orgulho escraviza
O coração infarta quando não há como lidar com a ingratidão.
A pressão sobe quando o medo aprisiona
As neuroses paralisam quando o “eu” tiraniza
A febre surge quando a imunidade é ameaçada.
O coração desiste quando viver não faz mais sentido
O que adoece não é a só dor, a ausência, a saudade
Mas também a eterna escolha do papel de vitima.
Em alguns casos, o mal pode estar no excesso de orgulho
Ou na necessidade de controle.
Tentar compreender o que de verdade nos aflige
é um passo para começar a lidar com os problemas,
antes de interiorizar as dores da alma.
“Na vida, cada um escolhe o que plantar,
mas deve ter consciência que é isso que irá colher”.

Li algo parecido na sala de espera de um espaço terapêutico, e este texto é uma espécie de reflexão a respeito.

(*) Imagem de 1981 do francês Jean Fabre