quinta-feira, 28 de abril de 2011
Conto de fadas
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Perplexidade

Eu queria saber juntar letras
para formar palavras
Juntar palavras e compor frases
e contar histórias
Histórias para falar da vida
mesmo que do ponto de vista
do meu olho estrábico
torto, perdido, embaçado
Depois eu criaria narradores
que vissem o mundo
de outros ângulos,
outro olhar mais nobre
ou mais pérfido que o meu
Só assim talvez eu
pudesse traduzir em letras
o sentimento destes dias
de tiros e sangue
em escolas de crianças
* Foto do Sanatório Vicentina Aranha, feito pelo meu amigo Alvaro Xavier, com muita sensibilidade: http://www.alvaroxavier.blogspot.com/
** Texto inspirado numa frase do falecido artista plástico Leonilson, cuja obra incrível é tema de exposição no Itau Cultural até o final de maio.
sexta-feira, 25 de março de 2011
O gato, o urso e o rato
Preciso confessar: eu ando apaixonada. Desde que o Machado entrou na minha vida, tudo se modificou. Para mim ele significou um resgate no tempo e de novo eu voltar a ser responsável por um bebê: remédios, alimentação, vacinas, carinho, carências, estimulação, brincadeiras, etc. O que compensa a frustração de, às vezes, eu ser preterida pelo urso de cimento ou o ratinho de pelúcia.
Machado é um gatinho vira-lata de cerca de 4 meses que peguei numa Ong que funciona dentro do Parque da Água Branca, em São Paulo, lugar onde gente sem sentimento joga animais como se fossem lixo. Então um grupo de senhoras se organizou, e conseguiu da Prefeitura, que administra o parque, um pequeno espaço para construir o gatil, uma área pequena e cercada com grade de ferro. E lá, com ajuda financeira de uns poucos, elas dão plantões de até 6 horas/dia para alimentar e cuidar desses bichos descartados até que sejam adotados (já castrados e vermifugados) sem cobrança de taxa alguma. Contam apenas com a colaboração de alguns veterinários e de jovens que cuidam da manutenção e atualização do site http://www.balaiodegatos.net/index.htm
Todinho preto e com olhos amarelo esverdeados, Machadinho logo ganhou esse nome em alusão ao grande escritor Machado de Assis também negro de olhos claros. E é o responsável pela festa que virou a minha vida. Ele está aqui em casa há 45 dias. Desde então nunca mais pude deixar gavetas e portas abertas, alimentos sobre a mesa, nem nunca mais consegui ficar na cama à toa pela manhã, porque sei que tem uma coisinha linda, atrevida, desafiadora, engraçada, meiga e toda cheia de gás só esperando eu levantar para começar um novo dia bem agitado.
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
O último portal fazendo festa
Sábado que vem tem festa, aqui em São Paulo, pelo lançamento do Portal Fahrenheit, o último da série. Tenho a honra de fazer parte desse time de autores de pira no gênero ficção científica.
Aqui o convite para o evento que reunirá autores de todas as revistas da série. Apareça. Vai ser um prazer. Clique sobre a imagem para que ela cresça.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
As várias faces de Laura (e alguns catados)
Tive a honra de ser entrevistada no Escritablogue, onde pude falar um pouco de mim e do meu trabalho. A edição mostra um apanhado dos meus textos em prosa & verso.
Quem quiser conhecer este blogue incrível basta clicar aqui:
http://escritablog.blogspot.com/search/label/laura%20fuentes
É a volta da Revista Escrita, editada pelo escritor, jornalista e professor Wladyr Nader, que abalou o mercado editorial nos anos 80 e 90 com a editora de mesmo nome, e que, agora em formato digital, promete barbarizar.
(*) A arte é do francês Jan Fabré
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Kafka é pouco
— Desaparecida? Como assim?
— Aqui consta que alguém comunicou à policia o seu desaparecimento. Sendo assim, não podemos fornecer um novo RG.
— (Atônita e respirando fundo) Olha meu rapaz, eu sou eu, juro, estou aqui sã e forte, vim com minhas próprias pernas até este Poupatempo que dizem que, de tão eficiente parece coisa de primeiro mundo, pago as minhas contas, vivo nesta cidade desde que nasci e, que eu saiba, embora muitas vezes eu tenha desejado ardentemente, jamais desapareci assim, sem mais nem menos.
— Sei disso, estou vendo. Mas não posso fazer nada. A senhora deve se dirigir ao DHPP com o documento original e ver o que está acontecendo, resolve tudo e então volta aqui — disse o rapaz no estilo funcionário público entediado, crachá ostensivo no peito.
— Isso é tão surreal que me soa como um conto do Kafka...
— Hã?
— Deixa pra lá. Só me dê o endereço direitinho e me ensine como chegar lá, por favor, moço.
Foi aí que lembrei que, justamente porque ia pegar o novo RG, eu não tinha levado nenhum outro documento original na bolsa. Assim, precisei voltar para casa. No caminho, ía tentando controlar o pânico de precisar ir para o bairro da Luz. Quem mora em São Paulo entende o drama que isso representa devido ao entorno repleto de prostituição e de gente consumindo crack. Ah, detalhe, chegando no meu prédio, os caras da manutenção estavam consertando o elevador. Não acreditei: tive que subir (e descer) os nove andares na raça. E por dentro blasfemava, tem dia que já nasce torto.
— 98? Sei lá, já nem me lembro — respondi
— É, mas alguém declarou seu desaparecimento nessa data. Terá sido durante alguma viagem?
Segurei para não dar risada. Ele parecia aquelas videntes que ficam olhando para a bola de cristal, vêem coisas, vão disparando frases e pouco olham nos olhos da gente.
— Ora, eu viajo constantemente, o trabalho me obriga. Vez por outra também saio em férias Mas, que eu saiba, ninguém jamais achou que eu tivesse sumido de vez.... Só se foi algum ex-namorado saudoso — aventei, sorrindo. Imagina só, eu fazendo gracinhas dentro da Polícia Federal. Agora, susto passado, nem eu mesmo acredito.
— Vai ver ele tava com medo que a senhora não voltasse — brincou.
Para encurtar a história, Alipio (esse o seu nome) descobriu que existe um homem em São Paulo, um tal de César Tertuliano não sei do que (eu achei o nome do caramba), que tem um número do RG idêntico ao meu, com a exceção de um “dígito X”. E foi o Tertuliano quem desapareceu naquela data, não eu. O sistema deve ter se confundido, sei lá.
— Pronto, baixei a informação do sistema. Mas ainda consta aqui que em 2001 seu RG foi extraviado...
— Ah, sim, foi quando me furtaram a carteira, mas na época fiz B.O e tirei um novo — respondi pensando caramba, esses caras sabem de tudo — Mas isso pode atrapalhar, moço?
— Acredito que não. Pode voltar ao Poupatempo que eles lhe entregarão o documento na hora.
— Poxa, muito obrigado — agradeci com um aperto sincero de mão.
—Agora namorado nenhum mais pode dizer que não a encontrou — respondeu Alipio, mostrando que tinha aderido à brincadeira.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Contagem progressiva
Desde criança, fico melancólica nos dezembros e nem sei explicar bem por que, mistura de sentimentos. A cidade enfeitada de luzes, vermelho, verde e dourado encanta, mas o ritmo que ela ganha me assusta. É uma agitação sem propósito, todos correndo rumo a um final e um recomeço carregado de esperança. E começa uma contagem regressiva angustiada. Ou será progressiva?
Amigos que não se vêem há tempos exigem um encontro “antes que o ano se acabe”. Almoços, jantares, drinques. Como zumbis seguindo uma sina, as pessoas saem às ruas aumentando o tráfego, brigando por vagas, por taxis, metrô e ônibus lotados, comércio apinhado, gente se digladiando por produtos ou a atenção dos vendedores exaustos. Listas enormes de presentes e lembrancinhas. É preciso suar em bicas para encontrar as melhores ofertas, não pode faltar para ninguém. Todo ano é igual: saldo estourado, corpo massacrado. Tantas confraternizações aumentam o estresse, mas o que importa é celebrar. Mas celebrar o que mesmo?
É adrenalina demais até que o ano recomece do um. E então, vem a delicia: todo janeiro é um mês morno, sossegado. Na medida para se procurar aqueles de quem se gosta de verdade, e marcar um encontro gostoso, com direito a muita troca, poder se ouvir, se escutar, todos mais disponíveis e doidos para estrear modelos e acessórios ganhos no Natal, contar as novidades.
Por isso que há algum tempo quando me convidam para encontrinhos de final de ano solto sempre um “a gente se vê em janeiro, quando tudo se acalmar”. E funciona, posso garantir. Viro um motivo a menos de estresse natalino, e mantenho os amigos que conquistei e faço questão de manter.
Há algum tempo aprendi a “limpar o terreno”. Me afasto dos tristes por opção, no eterno papel de vitimas (e que teimam em manter a nuvenzinha de estimação) para poder me dedicar e cuidar das amizades verdadeiras, como se fossem plantas delicadas. Uma simples questão de escolha. A frase abaixo diz tudo:
"Hay personas que transforman el sol en una simple mancha amarilla. Pero hay también quienes hacen de una simple mancha amarilla el proprio sol." (Pablo Picasso)
Desejo a todos os que acompanham este blogue, um 2011 muito amarelo!





