segunda-feira, 9 de maio de 2011

Muda




Queria saber dizer tanto com tão pouco, como o Augusto dos Anjos neste poema de 1984, feito bem no auge da poesia concreta.


Tive esse poema colado por 10 anos num painel no meu quarto, meus filhos até o conhecem de cor. Hoje ele não está mais na parede, mas permanece aderido em mim com toda a sua perplexidade.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Conto de fadas




Uma plebéia, nascida num reino não muito distante, vai se casar com o príncipe, e o mundo todo se sente convidado a sonhar um pouco. Uma brecha de encantamento, uma licença para a fantasia. Bem dizia o escritor francês Joseph Joubert (1754-1824):



"A esperança é um empréstimo que se pede à felicidade."



Todos sabem que, mesmo com beijos, o principe se revelará um sapo, que a realeza é uma mentira engalanada e que o povo jamais terá direito aos brioches. Mas não custa nada sonhar que um lobo bem mau e gostoso acorde essa garotinha.



(*) Óleo "Menina no espelho", de Norman Rockwell.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Perplexidade


Eu queria saber juntar letras
para formar palavras
Juntar palavras e compor frases
e contar histórias
Histórias para falar da vida
mesmo que do ponto de vista
do meu olho estrábico
torto, perdido, embaçado

Depois eu criaria narradores
que vissem o mundo
de outros ângulos,
outro olhar mais nobre
ou mais pérfido que o meu

Só assim talvez eu
pudesse traduzir em letras
o sentimento destes dias
de tiros e sangue
em escolas de crianças


* Foto do Sanatório Vicentina Aranha, feito pelo meu amigo Alvaro Xavier, com muita sensibilidade: http://www.alvaroxavier.blogspot.com/
** Texto inspirado numa frase do falecido artista plástico Leonilson, cuja obra incrível é tema de exposição no Itau Cultural até o final de maio.

sexta-feira, 25 de março de 2011

O gato, o urso e o rato



Preciso confessar: eu ando apaixonada. Desde que o Machado entrou na minha vida, tudo se modificou. Para mim ele significou um resgate no tempo e de novo eu voltar a ser responsável por um bebê: remédios, alimentação, vacinas, carinho, carências, estimulação, brincadeiras, etc. O que compensa a frustração de, às vezes, eu ser preterida pelo urso de cimento ou o ratinho de pelúcia.


Machado é um gatinho vira-lata de cerca de 4 meses que peguei numa Ong que funciona dentro do Parque da Água Branca, em São Paulo, lugar onde gente sem sentimento joga animais como se fossem lixo. Então um grupo de senhoras se organizou, e conseguiu da Prefeitura, que administra o parque, um pequeno espaço para construir o gatil, uma área pequena e cercada com grade de ferro. E lá, com ajuda financeira de uns poucos, elas dão plantões de até 6 horas/dia para alimentar e cuidar desses bichos descartados até que sejam adotados (já castrados e vermifugados) sem cobrança de taxa alguma. Contam apenas com a colaboração de alguns veterinários e de jovens que cuidam da manutenção e atualização do site http://www.balaiodegatos.net/index.htm


Todinho preto e com olhos amarelo esverdeados, Machadinho logo ganhou esse nome em alusão ao grande escritor Machado de Assis também negro de olhos claros. E é o responsável pela festa que virou a minha vida. Ele está aqui em casa há 45 dias. Desde então nunca mais pude deixar gavetas e portas abertas, alimentos sobre a mesa, nem nunca mais consegui ficar na cama à toa pela manhã, porque sei que tem uma coisinha linda, atrevida, desafiadora, engraçada, meiga e toda cheia de gás só esperando eu levantar para começar um novo dia bem agitado.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O último portal fazendo festa



Sábado que vem tem festa, aqui em São Paulo, pelo lançamento do Portal Fahrenheit, o último da série. Tenho a honra de fazer parte desse time de autores de pira no gênero ficção científica.

Aqui o convite para o evento que reunirá autores de todas as revistas da série. Apareça. Vai ser um prazer. Clique sobre a imagem para que ela cresça.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

As várias faces de Laura (e alguns catados)



Tive a honra de ser entrevistada no Escritablogue, onde pude falar um pouco de mim e do meu trabalho. A edição mostra um apanhado dos meus textos em prosa & verso.

Quem quiser conhecer este blogue incrível basta clicar aqui:

http://escritablog.blogspot.com/search/label/laura%20fuentes

É a volta da Revista Escrita, editada pelo escritor, jornalista e professor Wladyr Nader, que abalou o mercado editorial nos anos 80 e 90 com a editora de mesmo nome, e que, agora em formato digital, promete barbarizar.



(*) A arte é do francês Jan Fabré

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Kafka é pouco


— Lamento, seu documento não saiu porque a senhora está desaparecida.
— Desaparecida? Como assim?
— Aqui consta que alguém comunicou à policia o seu desaparecimento. Sendo assim, não podemos fornecer um novo RG.
— (Atônita e respirando fundo) Olha meu rapaz, eu sou eu, juro, estou aqui sã e forte, vim com minhas próprias pernas até este Poupatempo que dizem que, de tão eficiente parece coisa de primeiro mundo, pago as minhas contas, vivo nesta cidade desde que nasci e, que eu saiba, embora muitas vezes eu tenha desejado ardentemente, jamais desapareci assim, sem mais nem menos.
— Sei disso, estou vendo. Mas não posso fazer nada. A senhora deve se dirigir ao DHPP com o documento original e ver o que está acontecendo, resolve tudo e então volta aqui — disse o rapaz no estilo funcionário público entediado, crachá ostensivo no peito.
— Isso é tão surreal que me soa como um conto do Kafka...
— Hã?
— Deixa pra lá. Só me dê o endereço direitinho e me ensine como chegar lá, por favor, moço.

Foi aí que lembrei que, justamente porque ia pegar o novo RG, eu não tinha levado nenhum outro documento original na bolsa. Assim, precisei voltar para casa. No caminho, ía tentando controlar o pânico de precisar ir para o bairro da Luz. Quem mora em São Paulo entende o drama que isso representa devido ao entorno repleto de prostituição e de gente consumindo crack. Ah, detalhe, chegando no meu prédio, os caras da manutenção estavam consertando o elevador. Não acreditei: tive que subir (e descer) os nove andares na raça. E por dentro blasfemava, tem dia que já nasce torto.


Pesquisando na internet, descobri o ônibus que me deixaria bem na esquina do prédio da Polícia Federal e para lá fui. Mas, quando parei do outro lado da rua, não pude evitar de sentir um calafrio ao observar aquele prédio grande, antigo e imponente. Gente da minha geração, depois de todos aqueles anos duros, tem horror a tudo que se relaciona com polícia! Mas fazer o que? Puxei o ar, estufei o peito, me enchi de atitude e entrei. No balcão de informações, um senhor me informou que o Setor de Desaparecidos ficava no sétimo andar. O arrepiou piorou quando desci no imenso hall do andar indicado e uma placa na parede explicava o significa DHPP : Divisão de Proteção à Pessoa. Proteção?


Não sabia para que lado ir naquele emaranhado de corredores muito largos e salas imensas e vazias, só uma funcionária lixando as unhas aqui, outra papeando com a comadre pelo telefone ali (conta e salário pagos pos nós, contribuintes, claro). Enquanto perambulava perdida por ali, ía pensando quanto desperdicio de espaço. Com a carência educacional nesta cidade, melhor seria instalar uma escola alia. Comecei a me perguntar: cadê as dezenas de delegados que a gente vê toda hora na TV se gabando de seus feitos? Estariam todos agora no Datena? Se eles são assim tão eficientes e tão pouca gente precisa se proteção para que tanto espaço? Até que finalmente alguém me deu atenção e disse: "Ah, os Desaparecidos é ali, a segunda porta dobrando à esquerda".


A tal porta abria para um amplo conjunto de salas sem viva alma. Tudo vazio, exceto uns dois ou três paletós pendurados em algumas cadeiras. Clássico. Concentrando o olhar, vi que havia um rapaz lá no fundo numa sala às escuras. Sinistro. Só eu e ele por ali. Bati numa mesa fazendo barulho, acenei, ele respondeu ao aceno e, cinco minutos depois, enfim se dignou a sair do escurinho (ele também bem escurinho, cabelo rasta) e veio me atender. Contei a história ao cavaleiro solitário que me chamou a sentar frente a sua mesa e logo foi digitando os meus números no computador.


— Humm, vejo aqui que tem um B.O de 1998... o que a senhora estava fazendo em 98? — indagou, sério e com um certo tom de mistério.
— 98? Sei lá, já nem me lembro — respondi
— É, mas alguém declarou seu desaparecimento nessa data. Terá sido durante alguma viagem?
Segurei para não dar risada. Ele parecia aquelas videntes que ficam olhando para a bola de cristal, vêem coisas, vão disparando frases e pouco olham nos olhos da gente.
— Ora, eu viajo constantemente, o trabalho me obriga. Vez por outra também saio em férias Mas, que eu saiba, ninguém jamais achou que eu tivesse sumido de vez.... Só se foi algum ex-namorado saudoso — aventei, sorrindo. Imagina só, eu fazendo gracinhas dentro da Polícia Federal. Agora, susto passado, nem eu mesmo acredito.
— Vai ver ele tava com medo que a senhora não voltasse — brincou.
Para encurtar a história, Alipio (esse o seu nome) descobriu que existe um homem em São Paulo, um tal de César Tertuliano não sei do que (eu achei o nome do caramba), que tem um número do RG idêntico ao meu, com a exceção de um “dígito X”. E foi o Tertuliano quem desapareceu naquela data, não eu. O sistema deve ter se confundido, sei lá.


Naquele momento, enquanto o rapaz lutava para tirar a tal informação do meu prontuário, divaguei um pouco ao observar como ele, um simples funcionário público do baixo escalão tinha acesso e o poder de modificar as coisas, colocar ou retirar observações de qualquer ficha documental, sem qualquer protocolo, documento ou testemunha que atestasse essa interferência, e como deve ser assim que a malandragem prolifera. Ah, o baixo clero (vide o episódio recente do vazamento do imposto de renda de alguns tucanos). Já delirando, pensei, poxa, não seria bacana também se Receita Federal também me desse por desaparecida desde 98? Quanto imposto eu poderia ter economizado esse tempo todo?


Depois de alguns minutos totalmente em silêncio, apenas teclando, Alipio disse:
— Pronto, baixei a informação do sistema. Mas ainda consta aqui que em 2001 seu RG foi extraviado...
— Ah, sim, foi quando me furtaram a carteira, mas na época fiz B.O e tirei um novo — respondi pensando caramba, esses caras sabem de tudo — Mas isso pode atrapalhar, moço?
— Acredito que não. Pode voltar ao Poupatempo que eles lhe entregarão o documento na hora.
— Poxa, muito obrigado — agradeci com um aperto sincero de mão.
—Agora namorado nenhum mais pode dizer que não a encontrou — respondeu Alipio, mostrando que tinha aderido à brincadeira.


Saí da Luz aliviada, me enfiei nas entranhas do metrô, ressurgi na superfície da estação Sé ensolarada, certa de que eu não estava mais na lista dos desaparecidos desta nação. Retornei ao Poupatempo e, em 40 minutos, saía de lá com meu RG fresquinho, foto recente revelando novas rugas que, para mim, são a comprovação que o tempo passa, mas Macunaíma continua rei por aqui.


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PS: Ah, nada a ver, mas só pra constar, fui pesquisar e descobri que Tertuliano nasceu de família pagã, e tornou-se um líder cristão rebelado que criou sua própria religião por volta do ano 200 d.C. E provocou muita polêmica por desmentir algumas crenças, entre elas a virgindade de Maria. É mole?