Penso em você quando chove
raios e trovões me assustam...
desde criança é assim.
Boba, imagino invasão
naves de um outro lugar
milhões de seres miúdos
invadindo o bairro, casa,
se esgueirando em nosso lar.
E quando as gotas açoitam
o vidro querendo entrar
gelo por dentro, absorta
certa que vou naufragar
cerro os olhos e as cortinas
e, por dentro, eu te chamo
Quando o céu todo se espreme
de nuvens, veste seu manto
sombrio, ruge e treme
mandando o vento gritar
tempestade, eu me recolho
pensando: vai demorar ...
Desta vez, a chuva pode
me levar, me desmanchar
como seu eu fosse um confeito
todinha feita de açúcar.
Sempre que isso acontece
tudo o que quero é você
pertinho me protegendo.
Você é meu bote, minha
arca, meu telhado, para-raio
ou a terra que absorve
toda a água no seu dentro.
Com você do lado sinto
calma, passa chuva, passa
o medo, passa tudo
passa boi, passa boiada...
Logo mais o céu se abre
de novo em branco e azul
mas o colinho serviu
pra me deixar com a certeza
de ser muito amada, mesmo
com esse defeito infantil,
talvez marca de nascença.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Confeito
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
O homem voz
Mulher adora fazer compras. Não dá para negar. Tempos atrás eu morava perto de uma importante rua de comércio de São Paulo, e costumava circular bastante por ali. Certo dia, precisando pesquisar preços para um eletrodoméstico, tomei coragem e entrei nas Casas Bahia, mesmo sabendo que teria os ouvidos machucados por uma música infernal entremeada com as dicas das melhores ofertas da loja gritadas pelo locutor de plantão. Não deu outra, logo escutei a seguinte pérola numa voz empostada:
— Você fala tão bem, tem uma voz tão bonita, mas não pode cometer erros do tipo “pode estar adquirindo”, senão as pessoas logo vão te imitar e passarão a falar errado também.
Temi que ele ficasse chateado, envergonhado, ou ainda que me respondesse de forma agressiva. Mas que nada, ele ficou tão envaidecido com o elogio à sua voz que abriu um sorriso enorme, e ainda me agradeceu a dica dizendo:
— Gosto quando me corrigem, só assim posso me preparar melhor para o meu sonho que é trabalhar no rádio.
Estimulada, fiquei conversando alguns minutos com ele, mostrando alternativas gramaticais para aquela frase tão dolorosa aos ouvidos mais sensíveis. No curto tempo ele me contou que se chamava Rogério Carlos, porque a mãe criou os filhos para serem gente importante na vida. O irmão mais velho era Roberto Carlos, o segundo Erasmo Carlos. Nasceu e foi criado numa cidadezinha próxima a Belo Horizonte, daí pronunciar as palavras bem mastigadas e aquele tipo de “R” soprado, correto, empregado por atores, locutores e os mineiros daquela região. Contou também que largou emprego, casa e família para vir tentar a sorte em São Paulo apostando unicamente na dicção perfeita e no timbre natural muito grave. Para realizar o sonho, valia tudo, até morar em vaga para homens solteiros numa pensão da região da Luz, onde se sentia muito solitário.
Nunca mais o vi, e jamais esqueci desse rapaz e da sua tenacidade. Mas dia destes, no metrô me lembrei dele. E explico por quê. Gosto muito de observar as pessoas, seus traços e reações. Por isso, sempre que vou tomar o metrô, me coloco na plataforma de forma a poder observar o condutor vindo em minha direção, e depois que entro, avaliar se a voz que ecoa dentro dos vagões combina com sua figura. Uma bobagem, mas eu me divirto com isso, confesso. Já vi condutoras enormes e gordas com voz de garotinha, rapaz magro e atarracado com timbre poderoso, e até homenzarrões soando quase femininos. Raramente a voz combina com o tipo físico e isso para mim é uma gostosa brincadeira.
Mas, naquela tarde, eu estava distraída dobrando o guarda-chuva que pingava, e não prestei atenção no condutor. Logo depois, o alto-falante informava a próxima estação, seguido dos avisos de sempre. Dele vinha uma voz empostada, grave, com aquele “R” diferente dos paulistas, e tão familiar que me remeteu imediatamente ao Rogério Carlos.
Será que era ele? Teria RC se capacitado para prestar um concurso que pudesse deixá-lo mais perto do sonho? Quem sabe um dia especial trouxesse para ali alguém que reconhecesse o seu belo timbre e o levasse a falar com os fãs nas ondas de alguma rádio? Sei que é viagem, mas gosto de pensar que isso seria possível.
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
Coração agalopado

Final de ano e a cidade ganha cor de vermelho, verde, prata, ouro e urgência. Sacolas guardando carinhos, pacotes prometendo abraços, fitas desenhando laços e amores, gente se prometendo mudanças. Arquitetagem de sonhos. Ninguém parece ligar para as filas, as listas, o congestionamento, os pedintes, o cansaço da balconista, a fúria do manobrista. Um novo ano virá e, com ele, os planos a realizar: pintar a casa, trocar o carro, mudar de bairro, voltar a estudar, emagrecer, perdoar, viajar, parar de fumar, mandar o chefe praquele lugar. E em doses cavalares beijar, amar, trepar com urro, a pele amaciar e o peito destravar.
Vésperas do Natal, noite alta, corpo esparramado no sofá, o pé com bolhas após um dia de compras, toca o celular. Do outro lado, uma voz velha conhecida mas há muito distante. E aí, como vai? Viva o Orkut, finalmente nos achamos de novo. E as palavras jorram, se atropelam e se enovelam. Tanto pra falar, tantos acontecimentos desde então. Saudade braba, ninguém disfarça. Coração agalopado, o pensamento voa veloz rumo a um tempo sem tempo, um parêntesis blindando uma história guardada no arquivo das lembranças eternas. Impossível não delirar e desejar lá no fundo: será que agora vai ser diferente?
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Laura em outro livro
Amigos, fui convidada e orgulhosamente estou fazendo parte de uma outra antologia, agora no gênero ficção científica, e ao lado de escritores muito bacanas. Trata-se do Portal Fundação (Editora LGE). Aqui o texto de apresentação desse livro. Clicando aqui você lê o meu texto na integra. Adoraria merecer seu comentário.
P r o j e t o P o r t a l
A revista Portal Fundação - quarto número do Projeto Portal, coordenado por Nelson de Oliveira - traz contos inquietantes que vão do universo da ficção científica ao do fantástico, passando pelo da fantasia.
São vinte e seis narrativas sobre novas tecnologias, viagens no tempo, ciberespaço, telepatia, contatos imediatos do terceiro grau, pós-apocalipse, pós-humano, utopias e distopias, de dezesseis autores contemporâneos.
O Projeto Portal prevê seis números, com periodicidade semestral. Cada número homenageará, no título, uma obra célebre da ficção científica: Solaris, Neuromancer, Stalker, Fundação, 2001 e Fahrenheit.
Aviso importante: o projeto não se destina à comercialização. Os poucos exemplares da revista serão dados de presente aos leitores escolhidos pelos autores.
Os contistas do Portal Fundação são: Ataíde Tartari, Brontops Baruq, Giulia Moon, Laura Fuentes, Leandro Leite Leocadio, Luiz Bras, Luiz Roberto Guedes, Marco Antônio de Araújo Bueno, Maria Helena Bandeira, Martha Argel, Mustafá Ali Kanso, Ricardo Delfin, Richard Diegues, Roberto de Souza Causo, Roberto Melfra e Rodrigo Novaes de Almeida. (http://projeto-portal.blogspot.com)
sábado, 5 de dezembro de 2009
O amor e o tempo

Bem aventurados sejam aqueles de visão ampla que sempre vão um passo além. É o caso de Nelson de Oliveira, festejado escritor, professor e ensaista, que conseguiu fazer da sua tese de doutorado um livro capaz de ser apreciado por todo bom leitor.
Ele acaba de lançar o Axis Mundi - O jogo de forças na lírica portuguesa contemporânea (Ateliê Editorial), no qual analisa e compara a obra de dez poetas contemporâneos, a maioria desconhecida dos brasileiros. Só três deles têm suas obras editadas aqui. Dez autores, segundo Nelson, que produziram o que de melhor se publicou em Portugal do final do século passado ao início deste.
Amo a lírica portuguesa, e já conhecia o trabalho de alguns deles, como Adilia Lopes (maravilhosa) e Gonçalo Tavares. De modo que foi uma delicia seguir o raciocínio de Nelson na análise desses poetas, classificando-os numa espiral que vai da lírica de superfície à lírica mais subterrânea, termos que ele cunhou e que, certamente servirá de base para os estudos daqui para a frente.
Mas um desses poetas em especial me chamou a atenção. Reproduzo aqui um poema que ficou enrodilhado em mim, tamanho impacto. Espero que você o aprecie tanto quanto eu.
Explicação da eternidade
(de José Luís Peixoto, 2002)
devagar o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.
os assuntos que julgamos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.
por si só o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto a eternidade existe.
os instantes dos teus olhos parados em mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.
você foi eterna até o fim.
Para Nelson "o discurso de Peixoto passa da natureza redutora do próprio tempo para o comentário sobre essa mulher que "foi eterna até o fim", paradoxo delicado mas eloquente, que lembra muito a célebre chave de ouro do soneto de Vinícius de Moraes, sobre o amor: "que ele seja infinito enquanto dure" (Soneto da Fidelidade). De qualquer forma, tanto o "poetinha" como Peixoto falaram o mesmo, cada um a seu modo, que o amor pode sim ser eterno. Vou morrer acreditando nisso. E você?
(*) First Love, trabalho do ilustrador e artista plástico norteamericano Norman Rockwell.
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Mar vivo de corações expostos
O domingo que encerrava o feriadão amanheceu nublado, chuvoso, um convite para ficar em casa curtindo preguiça. No entanto a primavera paulistana fervilhava de eventos culturais. Mas quem optou por visitar a Balada Literária organizada pelo escritor Marcelino Freire certamente acertou.
Era o dia da homenagem à escritora Lygia Fagundes Teles, bela e classuda aos 86 anos, tarde quente de temperatura e afetos. Sua presença ampliou e elevou a média etária do público, atraindo tanto seus fãs de décadas como jovens sedentos em vê-la de perto. Perguntada sobre o futuro da sua obra, ela afirmou que isso é questão dos herdeiros, no seu caso, as duas netas que cuidarão do seu legado quando for a hora.
A questão tirou por instantes o brilho daquele olhar. Para onde terá ido no breve momento? Será que Lygia se referia aos dois maridos falecidos (Gofredo da Silva Teles e João Paulo Salles Gomes)? Haveria revolta por eles terem-se ido antes dela? De qual dos companheiros sentiría mais saudade? Mas logo explicou que se referia aos colegas que deixaram este plano ao dizer com palavras acinzentadas “é um mar morto de escritores”. Melancolia que corrigiu imediatamente ao afirmar, matreira, “mas vocês fiquem tranqüilos, viu? Apesar de estar com as pernas fracas (referindo-se à fratura recente e à necessidade da bengala) espero ainda viver muito”, seguido de um sorriso cativante, meio que a garantir que ainda vai continuar brincando o eterno joguinho das palavras e ideias.
Como da mesa fazia parte Benjamin Moser, o norte-americano que escreveu a biografia de Clarice Lispector, foi inevitável ela relembrar a escriba prematuramente falecida aos 57 anos, e dividir com a platéia detalhes dos encontros com a amiga “perto demais do coração selvagem” que ocorreram em viagens de eventos literários.
Lembrou carinhosamente das falhas de dicção da colega ucraniana/ brasileira, o que ela chama de “língua presa”, e se divertiu em revelar as recomendações que Clarice sempre lhe fazia. Por exemplo, “Lygia, tirrre esses vincos da testa e vista brrranco parrra conseguirrr leveza”. Daí a camisa branca por baixo do blaser, singela homenagem à amiga.
E assim, num descortinar informal, Lygia foi deleitando o público com memórias da sua juventude de moça humilde que publicou, aos 15 anos, o primeiro livro de contos patrocinado pelo pai. Falou do emprego no Departamento Agrícola do Estado de São Paulo que rendia o salário de 400 mil réis dividido com a mãe recentemente separada do pai. O restante do tempo e do dinheiro eram destinados para os dois cursos que fazia simultaneamente: Educação Física e Direito.
Contou que Clarice, sempre irreverente, nunca se conformou com sua vida de mulher certinha, que nunca teve um amante, por exemplo. “Não houve tempo, fiquei viúva cedo e logo me casei de novo”, desculpava-se. Lygia com a amiga. Clarice também não compreendia o interesse na atividade física. “Foi um esforço enorme fazer os dois cursos paralelamente, mas eu acredito mesmo que toda moça deve exercitar o corpo com a natação, a ginástica e os jogos”.
Lygia encantava-se com os esportes de competição. E foi bem nessa hora, ao se lembrar das orientações do mestre nas aulas de esgrima que ela mostrou a sua porção poeta. Nos treinos, o professor dizia “Menina, proteja-se, seu coração está exposto”. Ao que ela completou, “não adiantou nada o que ele me ensinou, pois meu coração continua exposto, até hoje”.
Felizmente para nós, seus leitores. E mais ainda para todos os privilegiados que tiveram a oportunidade de vê-la de perto na sua elegância bem humorada. Um mar vivo de corações tão expostos como o daquela dama na tarde de um domingo prá lá de especial.
(*) Foto de Fernanda Grigolin para a Balada Literária


