terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Like a virgin



Se tem coisa que perturba uma mulher, essa coisa atende pelo nome de “pelo”, sobretudo quando ele resolve aparecer nos lugares mais absurdos: na região entre a boca e o nariz (para não chamar de bigode, porque isso magoa), parte lateral do rosto, ponta do queixo, em volta dos seios e por aí afora. Tenho a pele clara, nunca tive muitos desses invasores, e os que apareceram vez ou outra, eu os aniquilei na base da pinça mesmo e nunca mais voltaram. No entanto, sem querer fazer trocadilho, os pelos abundam nos meus países baixos e avançam para as coxas, um horror.


Tem homem que adora mulher peluda, sei disso e já me fartei bastante com tarados desse tipo. Mesmo assim, ao longo da minha vida adulta, a depilação passou a ser uma obrigação mensal e ligeira, porque tive a sorte de morar por muitos anos no quarteirão vizinho ao da melhor depiladora do bairro. O problema foi quando mudei de casa e de região.

De início, eu atravessava a cidade atrás da Vanusa (esse o nome da minha “ex”), mas perdia tanto tempo com isso que resolvi conhecer as depiladoras do pedaço. Sofri nas mãos de umas três, cada qual com seu método, mas todas péssimas: os pelos eram apenas cortados e acabavam encravando, a pele ficava irritada, e todas se dizendo superespecialistas no assunto . Até que perguntando na academia, indicaram-me a Grace. Não perdi tempo, marquei hora e lá fui eu, inocente.

Lá chegando, tomei um susto: a mulher tinha quase 1.80m, era loura e forte, mais parecia uma tenista russa. Pensei em fugir, juro. Mas não deu tempo, muito sorridente, ela me convidou a deitar. Tentei brincar mais para acalmar a mim mesma: Então é você quem vai me torturar? Torturar? Imagina, eu não judio de ninguém, você vai ver, respondeu ela com a voz possante que me levava a duvidar. Percebendo o meu receio, Grace foi contando que tinha 15 anos de experiência, e que estava atualizada com as novas tendências.

Isso me deu uma ligeira acalmada, a ponto de eu pensar “Bom, já que vim, agora é encarar”. É virilha, né?, perguntou aquela espiã vinda da Cortina de Ferro. Siiiim”, gaguejei, logo tratando de explicar, mas só o contorninho, viu? Não vou à praia tão cedo...” .

Parece que Grace não me ouviu. Daí para a frente, ela foi tomada pelo espírito vingador de todas as mulheres, e me depilou tanto que eu temi sair de lá com xoxota de anjo. De repente, me mandou virar de costas. Pensei que ela ia tirar os pelinhos remanescentes da junção da coxa com a virilha. Ledo engano: ela mandou cera em toda a minha bunda, e não restou um único pelinho do cu para contar história, e tudo isso em silêncio e num curtíssimo espaço de tempo. Justo eu que nunca havia depilado o ânus com medo que doesse, descobri que é a região mais tranquila.

De repente, ouvi Vira pra cima, que ainda quero tirar na pinça um ou dois insistentes. Virei. E lá veio ela procurando os teimosinhos tão de perto, que cheguei a sentir o calor de seu hálito em meu clitóris agora exposto. E sendo sincera, viajei na ideia dela sugá-lo com aquela boca pequena entre maxilares quadrados e bem masculinos.


Resumindo: fiquei viciada na Grace. Todo mês vou lá e deixo ela fazer comigo o que quiser sempre segundo a sua inspiração: às vezes saio de bigodinho, às vezes de ponto circunflexo, às vezes de gravata borboleta. Desde então fico semanas curtindo a sensação deliciosa de passar a mão na xoxota lisinha feito estrela pornô, sinto tesão só de me olhar no espelho ou simplesmente sentir o seu roçar com a calcinha. O namorado amou a novidade e fica só esperando o dia da depilação para conhecer o novo shape. E eu mais ainda porque arrumei um álibi: se o tesão continuar assim desgovernado e eu passar a pular demais a cerca, posso sempre dizer que a culpa é da Grace e pronto.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Um tempo para pensar




Atenção: escritora em manutenção.



(*) Caramujo by Georgia O'Keefe

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Adeus titio

Acaba de falecer Carlos Fuentes, meu tio-avô. Estou inconsolável.

Muito mais que um grande escritor, a América perdeu um homem de seu tempo – de seus tempos. Que soube defender suas idéias com tamanha inteireza, com tamanha elegância, com tamanha firmeza, que mesmo os que tantas vezes discordaram dele poucas vezes deixaram de respeitá-lo.

Titio acreditava no futuro. No futuro da América Latina, no futuro no ser humano. Acreditava que, em algum momento desse nosso eterno recomeçar, nós, da América Latina, deixaríamos de recomeçar e começaríamos de verdade. Aqui o artigo de Eric Nepomuceno na integra.

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=20152&boletim_id=1191&componente_id=19125

Gosto de lembrar dele assim, sorrisinho maroto, entre os livros, o seu mundo.  Volto quando a saudade serenar.


quarta-feira, 11 de abril de 2012

Arrebentação



coração


arrebentação


pororoca


escuridão


você topa?


não?


idiota.


No fim da linha tem um céu, acredite.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Escolho meus amigos não pela cor da pele





Loucos e Santos

"Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril."

Oscar Wilde


Se quiserem ver o Antonio Abujamra dando esse texto daquele seu jeito sempre visceralcliquem no link
http://youtu.be/HOyXnW16zbw

sábado, 28 de janeiro de 2012

A cagada do Pinheirinho




A desocupação do bairro do Pinheirinho tem sido assunto da midia nos últimos dias, e motivo de reflexão de todos. Mas em vez de tentar expressar toda a minha indignação, coloco aqui o link do blogue da Soninha, jornalista e ex-vereadora por São Paulo. Concordo totalmente com ela, para quem aquilo tudo é fruto de um conjunto de omissão, covardia e descaso das autoridades.



Pior é que existem pessoas que dizem: "Esses sem-teto, sem-terra, sem-nada são um bando de gente querendo se dar bem sem esforço". Coitados, blindados dentro de seus bens, eles só podem estar cegos.






Este é o primeiro de 4 posts dela sobre o assunto. Tente ler todos, ela vai fundo. E depois me diga o que pensou. Está aberto o debate.


(*) Foto de Sarah Moon, fotógrafa francesa nascida em 1941.


sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Mottainai!


2011 acaba amanhã e, baseados em antigas previsões, muitos dizem que tudo acabará em 2012. Será? Essa possibilidade tem tirado o sono de tanta gente, mas eu prefiro não perder tempo com esse tipo de coisa. Mas não posso evitar de ficar meio melancólica, sorumbática neste periodo, mesmo com toda a agitação das Festas.

Semana passada eu viajei, peguei a revista 29 horas (disponível nos principais aeroportos), guardei-a na mala, e só ontem consegui abri-la. E logo me deparei com matéria da minha amiga Chantal Brissac trazendo depoimentos de Lia Diskin, argentina que vive no Brasil desde 1971, quando ajudou a formar a Associação Palas Athena (que agencia e incuba projetos sociais e educacionais) e que está por trás de algumas das mais concretas e persistentes iniciativas pela paz e pela convivência entre as pessoas.

Nessa matéria, Lia reflete sobre a questão do consumo e como ele afeta o meio ambiente. Ela cita o grande pensador Confúcio que 2.500 anos atrás já dizia: "Nada é bastante para quem considera pouco o que é suficiente". Gandhi, por sua vez, sempre repetia: " Todo aquele que tem coisas de que não precisa é um ladrão", referindo-se ao fato de que, quando você guarda algo que não usa, automaticamente está impedindo que outra pessoa o utilize. Lia garante que, se Gandhi vivesse hoje, sua maior luta seria parar a onda desenfreada de consumo.

Ainda tem muita gente morrendo de fome no planeta, mas continuamos desperdiçando alimentos. Estamos caminhando para uma falta de água universal, e ainda assim nossos banhos são longos e as torneiras ficam abertas mais tempo do que deveriam. Produzimos lixo em quantidades absurdas e inconsequentes, seguimos trocando celulares e eletronicos sem real necessidade. É que talvez a nossa preocupação ainda não tenha se transformado em indignação.

Mas felizmente, embora de maneira lenta, as coisas estão mudando e muitos vêm trocando o individualismo pelo coletivo. E já tem jovens trocando carro pela bicicleta, viagens caras por temporadas de trabalho e troca de experiências em aldeias indígenas ou africanas ou ajudando a transformar seus bairros em ecobairros. Na Europa há até prédios adotando esquemas de eletrodomésticos e carros compartilhados.

Então, copio Lia Diskin e ecoo aqui a palavra japonesa
"Mottainai!" que significa "que desperdício!". Que ela seja a nossa guia e esteja na ponta da lingua para ser dividida e multiplicada. Só assim poderemos viver melhor, e sem culpas, o tempo que nos resta. Feliz 2012 e sempre.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Mil tsurus



Minha querida amiga, a Tereza Yamashita, está participando de uma exposição com a mostra com o nome sugestivo e meigo que vocês podem ver aqui encima. Nela, ela nos brinda com mil tsurus , aquele origami mais famoso no Japão e que representa essa ave tão sagrada para eles.

Além de autora de livros infantojuvenis fantásticos, Tereza é designer gráfica e origamista de mão cheia. Não deixe de passar lá para conferir a delicadeza de seu trabalho.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Bafinho ou bafão?



Roberto jamais soube porque o nosso caso não foi para frente. Trabalhávamos juntos, tinhamos o incentivo de todos os colegas, valores e histórias parecidos. Havia atração e éramos livres, por que não tentar? Certo dia, resolvemos conferir toda aquela cisma amorosa. E ele bem que tentou, coitado. Foi carinhoso e eficiente nas suas manobras, mas simplesmente não conseguiu me empolgar. Quem diz que mulher não broxa?



Até hoje lamento essa impossibilidade, mas não dava para ignorar um terceiro elemento que se interpôs entre nós: o cheiro que desprendia de seu corpo e de sua boca, intolerável para mim, e que se acentuava cada vez mais, conforme ele transpirava no esforço de me agradar. Cheguei a ter náuseas. Foi constrangedor.


Curioso é que, tempos depois, Roberto foi alvo da paixão de uma colega linda, poderosa e casada, com quem manteve um tórrido romance que durou anos. Para ela, decerto o cheiro do meu amigo era atraente. Ou seja, o que repulsa um, pode ser o mesmo que atrai outro.


Parecia que esse espisódio frustrante estava sepultado dentro de mim para sempre, até que, dia destes, ao ler a última revista piauí, o artigo "Delação anônima" me remeteu a ele direto, e sem escalas. Fala de uma recém inaugurada Associação Brasileira de Halitose - ABHA, voltada para atender pessoas que querem dizer a alguém que ele tem bafo, mas sentem-se constrangidas de fazê-lo pessoalmente. Assim, a "vítima" recebe uma carta-padrão em sua residência ou trabalho, cujo texto é algo como "Um amigo próximo a você solicitou que entrássemos em contato para alguns esclarecimentos". Cheio de dedos, o texto discorre sobre as causas e o diagnóstico do mau hálito e oferece ajuda para informar, esclarecer ou mesmo indicar um profissional qualificado, garantindo o anonimato de quem teve a iniciativa.


Refletindo aqui com meus botões, busco na memória aquela velha história com o Roberto e as diferentes reações que ele provocava, e isso me leva à seguinte pergunta: fora os casos confirmadamente patológicos, você não acha que muitas injustiças poderão ser cometidas a partir desse novo serviço de delação anônima? Até porque cheiro e olfato são definitivamente coisas muito pessoais. Mas, na dúvida, antes se jogar fisicamente numa conquista, não custa nada, antes, conferir o bafo.

Na dúvida, já avisei meus amigos, meu amor e os parentes: se um dia parecer que eu comi um rato podre, por favor, me chama num canto e me diga isso baixa, discreta e amorosamente... não envolva mais ninguém nesse vexame.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Migalhas






ali se vê
a gata no pulo
Alice vem
pisando no licito
sorrateira
mas Nice quer
e querer é
falta de escrúpulo
ausência de medo
um contentamento
poeira de afeto


(*) Arte de Tulipa Ruiz, a cantora que vem bombando em todo o Brasil, e que se expressa também com as cores e as formas.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Rosários de Laura




  • Aqui se faz, aqui se paga, o preço é que varia.


  • Amigos, amigos, negócios à parte de todos.


  • A palavra é de prata, o silêncio de ouro. A escolha depende da cotação.


  • Esperta, a traine encurtou caminho ao abraçar o mundo com as pernas.


  • As aparências enganam se a etiqueta não estiver bem à mostra.


  • A mentira tem perna curta, e a verdade, preguiça.


  • Águas passadas não movem moinho, ovos caídos não voltam ao ninho.


  • Águas passadas não movem moinho, nem trilhas dos outros definem o meu caminho.


  • Lema dos exibidos: antes um belo especime do lado do que mal acompanhado.


  • Após a tempestade vem a bonança. Mas cadê a poupança?


(*) "Não negociável", trabalho de Robert Rauschemberg (1928-2008), o papa do pop norte-americano.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Mutilação





Ando sensível, mais parecendo um ouriço arrepiado, e tudo me faz refletir. Dia destes, conversando com amigos, soube o que um marido, na sua extrema simplicidade, disse para a mulher, recém-diagonosticada com câncer, e que teria que passar por uma mastectomia, o que para ele era uma forma de consolo: Não fica triste, não. Prá que eu preciso de dois peitos se eu tenho uma boca só?


Alguns o julgaram grosseiro. Já eu procurei ver o quanto tinha de compaixão naquelas palavras singelas, uma espécie de promessa de cumplicidade, acolhimento e companheirismo frente a uma situação que abala qualquer mulher com uma fúria descomunal.


Esse caso me fez lembrar o velho mito das amazonas, guerreiras da antiguidade que, segundo a lenda, tiravam o seio direito para melhor manejar o arco e a flexa, e assim defenderem os seus domínios. Consideradas Deusas da Guerra, as amazonas odiavam os homens (que insistentemente tentavam usurpar seus bens e seu território) e viviam em comunidades só de mulheres na Capadocia (região rochosa que hoje pertence à Turquia). Se elas existiram de fato, se é mito ou lenda, não se pode afirmar. Mas há um pé de verdade nisso, porque etmologicamente falando, a palavra amazonas vem de "a-mazós", ou seja, "sem-seios".


Essa digressão me leva à seguinte questão: em que espécie de amazonas nós, mulheres, nos transformamos, já que - com ou sem peitos - vimos sendo levadas a nos defender com tudo o que podemos contra todo o tipo de ameaça? E, nesse processo de defesa, quanto da nossa feminilidade vamos perdendo pelo caminho?

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O corpo, Momento VIII




Fazer o simples é o mais difícil. O grande Arnaldo Antunes nos dá uma aula disso nesta faixa criada para um espetáculo de dança do Grupo Corpo em 2.000, onde faz um mergulho poético sobre o corpo.


O corpo existe e pode ser pego
É suficientemente opaco para que se possa vê-lo
Se ficar olhando anos, você pode ver crescer o cabelo
O corpo existe porque foi feito
Por isso tem um buraco no meio
O corpo existe, visto que exala cheiro
E em cada extremidade existe um dedo
O corpo se cortado espirra um liquido vermelho
O corpo tem alguém como recheio.



Se quiser ver e ouvir, clica aqui: http://youtu.be/fWoY1xyS1zk


(*) "Le Bain de Pied" by Sarah Moon, 1998

terça-feira, 7 de junho de 2011

Alugo-me


Gosto de acordar tranquila, sem sobressaltos, e ouvindo boa MPB. Mas assim que pulo da cama, ligo o rádio na Band FM para me atualizar com aquela voz macia do Ricardo Boechat falando comigo e comentando as principais noticias do dia.
Um dos colunistas do programa é o José Simão que dá um toque de humor ao noticiário, ideal para relaxar o espírito e começar o dia com o ótimo astral. Mas ontem ele trouxe um fato realmente bizarro, um anúncio classificado que dizia assim:






Alugo-me



Sou um rapaz bonito, gentil, inteligente, elegante, e alugo-me para o Dia dos Namoramos. Dou beijo na boca, digo que amo e até poso para foto. As interessadas podem ligar para ...



Os locutores brincaram sobre o tal anúncio, eu mesma ri dessa nova estratégia de marketing pessoal, e o assunto não me saiu da cabeça. Quantas mulheres não se despesperam todo dia 12 de junho por não terem um namorado? Muitas até saem à caça, dispostas a encontrar uma "vítima" só para não passarem aquela noite sozinhas. E conforme a data vai se aproximando, descem os níveis de exigência até que vale qualquer um para chamar de seu, nem que seja por alguns dias (ou até algumas horas apenas).



Ano após ano os motéis lotam ao longo desse dia 12 em todos os horários: logo cedinho e na hora do almoço para os (as) casados (as) e seus encontros secretos, e a partir do pôr-do-sol os carros começam a se alinhar na porta com todo o tipo de casal: namoradinhos, namoradões, casais casados, pares de meninas, pares de meninos. O tempo de permanência comprime-se, no máximo três horas, porque a fila tem que andar e aí nada de tempo para o secador ou despedidas mais caprichadas.



A espera por lugares nos restaurantes e bares assim como na porta dos motéis é longa, os preços superfaturados, o trânsito infernal, a busca por vaga para estacionar desesperadora, mas vale a pena, inclusive trocar presentes, fazer juras, desfrutar de intimidades e confidências, nem que passados uns dias depois aquilo tudo se reduza a algumas boas lembranças... e uma foto.



Há muito que os homens já perceberam essa angústia aflitiva que acomete a maioria das mulheres (de todas as idades) que estão soltas na pista por conta do tal do Dia dos Namorados, e aproveitam-se disso para garantir-se de também não ficarem solitários nessa data.



Mas esse rapaz do anúncio foi além e, com sua atitude pró-ativa, ele vai ter condições de escolher, e agendar não apenas um, mas vários encontros ao longo desse dia. Pode até mesmo fazer uma espécie de leilão, do tipo “quem dá mais?” Haja saúde! E talvez nem precise transar, não é mesmo? Quem sabe para algumas baste mesmo apenas o tal beijo na boca e a foto com o gato para postar no Facebook.


Ele certamente vai ganhar muita grana, e no ano que vem muitos vão copiar sua estratégia simplesmente porque, por mais que os tempos mudem, e cada vez mais pessoas questionem a validade de um dia feito para o comércio faturar, todo mundo quer o calor de um toque humano, mesmo que de mentirinha e precise ser pago. A novidade agora é apenas o gênero do freguês.


(*) Aquarela "Sereno", de Maíra das Neves da menina dormindo sozinha ao lado de seu violoncelo numa floresta amedrontadora tem tudo a ver com o tema. www.mairadasneves.art.br

quinta-feira, 19 de maio de 2011

A voz de uma professorinha



Ontem Amanda Gurgel, uma professorinha do Rio Grande do Norte deu um tapa na cara dos politicos e dos dirigentes da educação em nosso país e tornou-se símbolo de uma luta. Ela é a imagem da esperança, porque só se tivermos mais jovens revoltados é que o ensino voltará a ter dignidade.


Trago para vocês este video que foi primeiro postado nos blogues dos escritores Braulio Tavares e Claudio Brites e que, certamente, será repercutido na blogosfera e nas mentes de todos os brasileiros. Chega de passividade. Vamos exigir que façam algo pela educação em nosso país já. Não dá para adiar mais isso.



segunda-feira, 9 de maio de 2011

Muda




Queria saber dizer tanto com tão pouco, como o Augusto dos Anjos neste poema de 1984, feito bem no auge da poesia concreta.


Tive esse poema colado por 10 anos num painel no meu quarto, meus filhos até o conhecem de cor. Hoje ele não está mais na parede, mas permanece aderido em mim com toda a sua perplexidade.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Conto de fadas




Uma plebéia, nascida num reino não muito distante, vai se casar com o príncipe, e o mundo todo se sente convidado a sonhar um pouco. Uma brecha de encantamento, uma licença para a fantasia. Bem dizia o escritor francês Joseph Joubert (1754-1824):



"A esperança é um empréstimo que se pede à felicidade."



Todos sabem que, mesmo com beijos, o principe se revelará um sapo, que a realeza é uma mentira engalanada e que o povo jamais terá direito aos brioches. Mas não custa nada sonhar que um lobo bem mau e gostoso acorde essa garotinha.



(*) Óleo "Menina no espelho", de Norman Rockwell.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Perplexidade


Eu queria saber juntar letras
para formar palavras
Juntar palavras e compor frases
e contar histórias
Histórias para falar da vida
mesmo que do ponto de vista
do meu olho estrábico
torto, perdido, embaçado

Depois eu criaria narradores
que vissem o mundo
de outros ângulos,
outro olhar mais nobre
ou mais pérfido que o meu

Só assim talvez eu
pudesse traduzir em letras
o sentimento destes dias
de tiros e sangue
em escolas de crianças


* Foto do Sanatório Vicentina Aranha, feito pelo meu amigo Alvaro Xavier, com muita sensibilidade: http://www.alvaroxavier.blogspot.com/
** Texto inspirado numa frase do falecido artista plástico Leonilson, cuja obra incrível é tema de exposição no Itau Cultural até o final de maio.

sexta-feira, 25 de março de 2011

O gato, o urso e o rato



Preciso confessar: eu ando apaixonada. Desde que o Machado entrou na minha vida, tudo se modificou. Para mim ele significou um resgate no tempo e de novo eu voltar a ser responsável por um bebê: remédios, alimentação, vacinas, carinho, carências, estimulação, brincadeiras, etc. O que compensa a frustração de, às vezes, eu ser preterida pelo urso de cimento ou o ratinho de pelúcia.


Machado é um gatinho vira-lata de cerca de 4 meses que peguei numa Ong que funciona dentro do Parque da Água Branca, em São Paulo, lugar onde gente sem sentimento joga animais como se fossem lixo. Então um grupo de senhoras se organizou, e conseguiu da Prefeitura, que administra o parque, um pequeno espaço para construir o gatil, uma área pequena e cercada com grade de ferro. E lá, com ajuda financeira de uns poucos, elas dão plantões de até 6 horas/dia para alimentar e cuidar desses bichos descartados até que sejam adotados (já castrados e vermifugados) sem cobrança de taxa alguma. Contam apenas com a colaboração de alguns veterinários e de jovens que cuidam da manutenção e atualização do site http://www.balaiodegatos.net/index.htm


Todinho preto e com olhos amarelo esverdeados, Machadinho logo ganhou esse nome em alusão ao grande escritor Machado de Assis também negro de olhos claros. E é o responsável pela festa que virou a minha vida. Ele está aqui em casa há 45 dias. Desde então nunca mais pude deixar gavetas e portas abertas, alimentos sobre a mesa, nem nunca mais consegui ficar na cama à toa pela manhã, porque sei que tem uma coisinha linda, atrevida, desafiadora, engraçada, meiga e toda cheia de gás só esperando eu levantar para começar um novo dia bem agitado.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

O último portal fazendo festa



Sábado que vem tem festa, aqui em São Paulo, pelo lançamento do Portal Fahrenheit, o último da série. Tenho a honra de fazer parte desse time de autores de pira no gênero ficção científica.

Aqui o convite para o evento que reunirá autores de todas as revistas da série. Apareça. Vai ser um prazer. Clique sobre a imagem para que ela cresça.