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sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Migalhas






ali se vê
a gata no pulo
Alice vem
pisando no licito
sorrateira
mas Nice quer
e querer é
falta de escrúpulo
ausência de medo
um contentamento
poeira de afeto


(*) Arte de Tulipa Ruiz, a cantora que vem bombando em todo o Brasil, e que se expressa também com as cores e as formas.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Repaginando


Eu não agüento mais
viver na incerteza
sentir tua frieza
a minha passividade
carinhos ocasionais

Não estou suportando
a lágrima na garganta
o teu jeito pilantra
coração espremido
beijo só vez em quando

Você quer cair fora
mas não acha jeito eu sei
então quem parte agora
sou eu, pode crer, sem drama
cada um no seu quadrado

Vou mais é me cuidar
um novo amor partilhar
alguém normal, com defeitos
mas sem amarguras no peito
mereço e vou encontrar

Então bye bye so long
e sem nenhum flash back.
só o que eu te peço é respeito
seja muito feliz
sem nenhum ressentimento
a gente se vê por aí

(*) Porta de renda em ferro, inspirada na obra de Robert Mapplethorpe

sábado, 19 de setembro de 2009

Um gostar distraído


Tarcísio gostava de Dinah. Não era por causa do seu jeito indireto, quase perpendicular de olhar. Não era pelos gestos contidos, pensados. Nem pelo jeito casual de se vestir. Mas talvez pelo que de sedutor ela escondia com a timidez, a cabeça baixa, a fala num fio, quase sussurrada, parecendo sempre meio assustada.


Gosto não se discute, e Tarcísio nem tentou descobrir a razão dessa atração absurda, nexo algum aparente. Foi-se apenas deixando levar pela garota de passos leves, que à sua maneira oscilante, ia-o conduzindo cada dia mais para dentro de seu mundo muito particular. E, como a maioria dos homens sofre de retardo emocional, Tarcísio não fugia à regra, por isso nem percebeu quando foi que aquele gostar cresceu a ponto de não conseguir mais nomear.


Já Dinah, ah a Dinah... por debaixo da aparência calma, do jeito meio sem jeito, essa sabia o que queria, e esse querer tinha um nome: Tarcísio. Sem os pendores próprios da beleza, ela tratou de cedo alimentar outros atributos bastante especiais, ainda que pouco valorizados: o ouvido, a compaixão, a paciência, a emoção sempre latente. Cercava-se de saberes e vivia rodeada de livros, por isso sempre tinha o que acrescentar ou forma de confortar a quem quer que precisasse ser escutado com atenção e carinho.


Quando conheceu Tarcísio, algo de muito estranho aconteceu. Era o homem de seu destino, mesmo que à primeira vista lhe parecesse um sonho absurdamente distante. E, como o Universo conspira a favor dos que desejam de forma tão arrebatada, ele foi se achegando e se envolvendo ainda que distraído. Dinah bem sabia que para ele era tudo apenas curiosidade. Por isso teve que aprender a desenvolver a calma, e não perder o controle com os esquecimentos, as traições e as dissimulações. Teve que aprender a fingir, e isso não era da sua natureza.


Enquanto isso, sem se aperceber, Tarcísio estava sendo enredado. Certo do domínio da situação e a porta de saída sempre aberta, ele abusava. Magoou tanto Dinah que, um dia, ela não aguentou mais e trancou as entradas. Bem que ele tentou se desculpar, prometeu até mudar. Descaso, para ela, era imperdoável. Era justo esse o seu limite.


Dizem que até hoje Tarcisio lamenta a perda daquela que nada lhe cobrou, muito lhe deu, a única que o fez feliz embora ele tenha custado a notar. Já Dinah, mesmo sofrendo a perda, seguiu o seu caminho.


E muitos não compreenderam quando, logo depois, ela começou a circular com Domingos, seu colega da faculdade. Tão tímido quanto ela, nada atraente, mas gentil e delicado, o rapaz foi seu abrigo e seu apoio naquelas horas difíceis. Ela até parecia mais bonita e segura de sí. Ficaram juntos por um tempo, fizeram planos. Até que o olhar enviesado de Dinah cruzou com o de Marcel, campeão de esporte, o gostosão da hora e só aberto a relacionamentos de superfície. E, de novo, ela caiu no conto do Homem de seu Destino. Tem gente que não aprende.


(*) " A menina no espelho", de Norman Rockwell, pintor e ilustrador norte-americano.

(**) Vai bem também ouvindo Maria Bethânia cantando "Grito de Alerta", de Gonzaguinha. Clique aqui.

domingo, 12 de abril de 2009

O melhor de uma mulher



Nunca vou esquecer aquela manhã. Acordei e a sensação era tão boa que nem conseguia abrir os olhos, queria prolongar o delicioso estado de felicidade plena. A noite passada tinha sido realmente maravilhosa e o quarto era um ninho quente-úmido. O André caprichou mesmo, eu pensava. Fiquei enrolando na cama, desfrutando o macio toque dos panos na pele enquanto flashes pipocavam trazendo retalhos da última e memorável entrega. Há muito não me sentia assim.
Ainda zonza, comecei a me espreguiçar languidamente, e com as pernas procurei o coadjuvante do último enredo para lhe dar o beijo-Oscar de bom dia, até que me dei conta que estava sozinha na cama.
Logicamente, imaginei, ele devia estar no banho, ou então havia descido para preparar o café. De repente veio uma vontade urgente de acarinhá-lo, mostrar o quanto ele era especial para mim, o quanto o amava, e curtirmos juntos aquele começo de dia depois da noite tão especial.
Bem devagarzinho fui então abrindo os olhos ainda melados enquanto rolava o corpo felino por sobre o colchão e, ao esticar o braço, senti que havia um papel sobre o travesseiro ao meu lado. Um bilhete de amor, pensei, toda feliz. Ainda deixei passar alguns minutos, até que finalmente sentei na cama. Mas o que li lá me deixou paralisada.

“Durante dias eu sofri sozinho, até que tomei coragem e, sem que você notasse, fui ajuntando minhas coisas. E resolvi que a vingança máxima seria te dar a melhor noite da sua vida, só para você se dar conta do que perdeu. Adeus.”

Na hora a ficha caiu, dolorosa, implacável. Com certeza André descobriu que eu transei com Aroldo, o seu melhor amigo. Foi uma coisa boba, um tesão passageiro que surgiu, e de repente nos vimos primeiro nos beijando na copa do escritório deles, depois num quarto ridiculamente erotizado de motel, e por último, cheios de culpa, na praia, num final de semana com casais amigos, quando demos uma fugida para um último encontro quando prometemos acabar com aquilo que poderia colocar em risco os nossos casamentos, e ainda magoar muita gente. Fazia mais de ano que aquilo acabara. Mas, sabe-se lá como meu marido descobriu.
Desde então ele desapareceu. Largou a empresa, o trabalho, os amigos, tudo. Arrependida até as entranhas, nunca tive a chance de me explicar ou tentar reconquistar o homem da minha vida, o único capaz de fazer brotar de mim, o melhor. Até que tentei, mas jamais encontrei alguém que chegasse a seus pés. Optei por ser só, e amargar o peso da culpa até eu mesma me perdoar. André acertou na vingança.

* A imagem acima é um trabalho do artista plástico Marco Paulo Rolla.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Várias


Cidade doida, amalucada, tensa. Desde que o dia começou, minha Executiva deu ordens, fechou contratos, ganhou dinheiro, dedinhos em bolha espremidos no escarpin de salto alto. Fim da tarde, a da Qualidade de Vida reclama e pede um basta. Decido fugir dali, ver o raro verde, respirar. Saio andando e olhares cobiçosos vasculham minha Melancia. Tento abstrair, até que viro a primeira esquina e um doido, olhos esbugalhados, vê melões em mim. Salada de Fruta selfservice? É verão, um sol teimoso e fora de propósito faz arder a pele delicada Nenê. Doem as meninas dos meus olhos. Resolvo recolher, e a Moça do Tempo, a que insiste em sensatez se encolhe toda na ducha em chuva sobre este corpo inseguro, pressentindo trovoadas. Vem a Meiga tentando produzir calma e passa o creme devagarinho pelo corpo todo em suaves massagens carinho. A vontade é vestir calcinha branca folgada, meias soquete e um camisetão para quando ele chegar. Hoje bem que queria aconchego, colinho. No entanto, deixo a Atriz se achegar, ela puxa Pin Up arquivada no canto, então me enfio num conjuntinho mega, ultra, blaster sexy de lingerie e espero. Como sempre nos últimos tempos, ele atrasa. Espero. Espero. Isso já é abuso, está demorando demais. Quando, horas depois toca a campainha, mando a Mulher Bomba atender a porta.

(*) imagem descaradamente copiada do blog Gulodice, da jornalista e expert em delícias, que também não sabe o nome do autor da foto

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Reconciliação

Ei, tira o sapato

senta aqui do meu lado

vem cá

tou afim de um papo

bem regado

vai, toma um Martini gelado

Tantas noites em claro

desta vez eu destravo

acabo com o amargo

que não leva a nada

cavo e descavo tudo

o que de lindo temos no passado

Mudei de atitude,

acredita

amor que já foi obsessão

amor que se nutriu de escuridão

amor que chegou a devoção.

Não!

isso tá mais é parecendo

um boleirão

sem essa coisa chata

de discutir relação

afinal, o que passou já passou

teve lá sua razão

Estou decidida

vou virar a página

e esquecer a traição

afinal, ela foi morar no Japão

e eu estou bem aqui

vivinha da silva

tinindo

vem, se faz de meu gato

de novo

só você me faz ronronar.


(*) Vai bem ouvindo a canção "A Idade do Céu", de Paulinho Moska com ele mesmo. Clique aqui

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Displicência


Por que seduzir, se a vontade é pouca, e as palavras ocas? Só mais uma marca no coldre?





Traço II, foto de Rafael Assef

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Certezas demais ... ou por quem os sinos dobram




Era definitivamente junho e a data combinada. Toda vida, Beth teve muitas dúvidas e algumas certezas. Assim como o sol nunca cai do céu e os rios jamais correm morro acima, Beth estava convicta que Paulo a amava sobre todas as coisas e que, finalmente, depois de 15 anos, ele deixaria Tereza e seria só seu. A eterna coitadinha que se virasse, como ela própria se virou esse tempo todo não tendo com quem compartilhar as noites, os natais, as férias.

Curioso esse trio. Conheceram-se na época do cursinho jovens, cheios de planos e libido. Logo Paulo partiu para cima da Beth, a exuberante morena que ganhava a vida como modelo sobretudo de lingeries. E sentia-se o mais homem dos homens quando via o recheio dela exposto em outdoors pela avenida, sabendo que era ele o escolhido a se chafurdar naquelas cobiçadas carnes. Muito embora não fosse nenhum apolíneo espécime, ele tinha lá seus atributos. Meio baixo para a época, contudo era magro, musculoso e sua saudável cabeleira atraía olhares e a cobiça de todos, inclusive no trabalho. Sim, naquela época Paulo já engatinhava uma promissora carreira no mercado de capitais.

Nunca ninguém entendeu, contudo, o que levou Paulo a se aproximar de Tereza, garota miúda e de beleza tão comum que, não fosse a tosse constante, passaria despercebida. Tímida, Tereza falava baixo e pouco. Nem loira nem morena, daquele tom incerto, tanto quanto incertos eram seus sonhos, a garota que desde tenra idade sofria de achaques de toda ordem cresceu cercada dos cuidados da família abastada. Talvez tenha sido justamente essa doçura frágil que atraiu Paulo.

Eram os anos 70, do amor livre e tal, Beth era a titular no coração do rapaz que, com alguma ginástica, fugia da marcação e ia fazendo pontos junto à Tereza. Beth sabia, mas liberal, nem dava importância às escapadelas dele. Afinal, era ela a prenda mais cobiçada, Paulo o seu escolhido e Tereza, decerto, jamais seria ameaça.

Tempo vai, tempo vem, e o coração de Paulo, atado ao de Beth , começou a bater também para a garota de cor indefinida, que com fragilidade comovente foi enlaçando-o, até que engravidou. É gravidez de alto risco, ela pode morrer.
Não posso abandoná-la agora, argumentou Paulo para justificar o casamento apressado. E continuava a alimentar a esperança: Assim que a criança nascer e Tereza melhorar, eu me separo e venho viver contigo. E Beth continuou acreditando nisso mesmo quando Paulo e a mulher tiveram o segundo filho, também com alto risco. Afinal, ele continuava o amante viril e apaixonado de sempre, telefonando baixinho no meio da madrugada, enviando torpedos durante a sessão do cinema escondido da mulher, mandando flores por tudo e por nada mesmo durante as freqüentes viagens de negócios, enfim o homem que toda mulher sonha. Por causa desse amor ela dispensou grandes partidos, aspirantes que tudo fariam para tê-la ao lado.

Enquanto isso Paulo prosperou, abriu empresa em sociedade com um velho amigo do cursinho, engordou um pouco, perdeu a cabeleira e aprendeu a viver dividido. Uma sabia da outra. Tereza, achando que era só sexo, fazia-se de morta. Beth atribuía à saúde frágil da rival a falta de coragem dele de romper com o casamento. Até que o destino deu uma mãozinha e, na primavera, uma forte infecção levou de vez Tereza. Beth se comoveu, claro, mas não pôde deixar de exultar. Estava chegando, enfim, sua hora de assumir o posto. Passado o funeral, começou a manifestar urgência. Afinal, o seu corpo em relógio gritava, e ela queria filhos e uma família. Mas ele pedia um tempinho, até as coisas acalmarem.

Beth, inquieta, pressionava, e ele acabou concordando em marcar uma data, e prometeu: até o próximo aniversário dela já estariam de casa montada e morando juntos de vez, agora sem ninguém para atrapalhar sua paixão. Só que, conforme junho ia chegando, mais Paulo ficava angustiado. Chorava muito, e não conseguia explicar a razão de tanto tormento. Ela atribuía esse estado de espírito à recente viuvez. Mas aos poucos, ele foi deixando de procurá-la, de telefonar, até que desapareceu, sem explicação alguma. Os amigos comentavam, a fofoca corria solta, mas ela recusava-se a acreditar. Até que, meses depois Paulo deixou os filhos com os avós, e transferiu-se de vez para a matriz da empresa no Rio de Janeiro.

E a morena, antes tão perto do sonho, teve que rever suas certezas. Por mais que o tempo passe e a terra gire, o sol nunca cairá do céu. Mas é possível, sim, um homem, aparentemente hetero, manter um caso secreto com o sócio por anos a fio, sem viva alma desconfiar. E, na hora de decidir, ser justamente esse o nó maior, impossível de ser desatado.


(*) Conto publicado no livro "Blablaglogue- Crônicas & Confissões", Editora Terracota, livremente inspirado no conto Desenredo, de Guimarães Rosa; e com um belo recorte by Peterso Rissatti no Vermelho Carne

(**) Vampiro", óleo do norueguês Edvard Munch (1895)

(***) Vai bem ouvindo o brega Amor Dividido, banda Calcinha Preta

sexta-feira, 12 de setembro de 2008






Porque há o direito ao grito.
então eu grito.” (Clarice Lispector)

domingo, 4 de maio de 2008

Largado

Ela bate a porta sem olhar para trás, deixando o rastro de seu perfume amadeirado, forte como ela. Parece que tem medo de mudar de idéia e voltar. Ou, se como naquela lenda, ao olhar pra trás ela pudesse ser transformada em estátua de sal, condenada a eternizar aquele momento ad infinitum.

Fico aqui, nu, sem vontade de sair da cama, e como sempre desorientado. Toda vez, depois de amar essa mulher, me sinto eu próprio condenado a esse estranho e aflitivo sentimento sobre o qual não tenho o menor controle. Longe dela sinto falta, me revolto, insulto a mim próprio, tento negar, fugir dessa estranha relação, mas não tem jeito: acabo cedendo, rendido de saudade e fome, e uma vez perto, viro seu brinquedo, totalmente à mercê desse encanto.

Foi numa festa que tudo começou. Eu entre amigos conversando à toa, feliz com minha vidinha: o trabalho, o curso de pós graduação, e a namorada que administrava muito bem, de forma leve e tranqüila. Até passar aquela mulher, ar vago, sem olhar nem para mim, nem para ninguém. Não que fosse excessivamente bonita, mas era alta, vestia-se de forma despretenciosa mas muito pessoal, cabelos fartos caindo em cachos pelos ombros, olhos enormes, escuros e ovalados, chamava a atenção. Como que pairando sobre o ambiente, ela foi direto à mesa de frios. E, nesta época onde tantos e tantas se preocupam com dietas, dava gosto ver como comia. Experimentava de tudo, saboreando cada coisa. Estava entretida nesse jogo de paladar, quando não me contive, cheguei perto, e baixinho, soltei perto de seu ouvido um tudo bem Magali? Ela entendeu a alusão à personagem comilona dos quadrinhos, sorriu meio envergonhada me olhando nos olhos, e aquele olhar foi definitivo. Caí direitinho. Logo voltei para os meus amigos, perdi de vista a morena, mas não a esqueci. Antes de partir, fiz questão de dar uma volta pela festa e não sosseguei enquanto não a encontrei. Ela estava conversando com um grupo de pessoas e, sem saber se estava ou não acompanhada, estendi-lhe o meu cartão, dizendo apenas me liga para falarmos daquele projeto.

Não deu outra. Dia seguinte, final do expediente, toca o meu telefone direto. Oi, tudo bom? Aqui é a Magali. Queria falar sobre o projeto, é possível? Pode ser amanhã, 16 horas, no Café Piazzito? Conhece o lugar? Feliz com a ligação, concordei na hora. E lá fui eu, com minha melhor camisa encontrá-la. Pouco falamos durante o café, sequer nos beijamos, mas nos bolinamos bastante. Em meia hora, no máximo, atravessávamos a rua rumo ao hotelzinho, desses de bairro, que havia bem na frente do Piazzito. Mal saímos do elevador, em busca do apartamento, já fomos nos roçando. Mais parecia coisa de bicho. Uma vez fechada a porta, veio um beijo tão urgente e tão faminto que nos atordoou. E foi assim que nos arrancamos as roupas, nos esfregamos, e nos consumimos ávidos um pelo outro. E ela chorou, gemendo baixo na hora do gozo, totalmente entregue. Ficou quietinha assim, deitada nos meus braços, alguns minutos, o suficiente para eu me sentir o mais feliz dos homens.

Durou pouco esse estado de entrega pois logo ela estava se vestindo, dizendo que tinha pressa, e depois de roçar seu rosto pelo meu, respirar longamente no meu pescoço, como que querendo reter meu cheiro, ela me deu um longo beijo de adeus, e se foi, batendo a porta, me deixando completamente aturdido. Nunca tive prazer tão intenso em toda a vida. Que mulher era aquela?, eu me perguntava quando reuni forças para sair daquela cama, daquele quarto e daquele hotel barato.

Quinze dias depois, novo telefonema. Oi, aqui é a Magali. Quer se encontrar comigo amanhã a mesma hora, no mesmo lugar? Claro que eu quis, mesmo tendo que cancelar uma reunião com meu melhor cliente. E de novo o café foi rápido, e a transa demorada, intensa e animal. Mistura total de corpos e línguas, sedes e seivas. De novo ela chorou, e de novo me largou lá, feito brinquedo usado. Mas quem é essa mulher? Será casada? Da onde vem? Por que chora na hora do gozo?

Isso vem durando um ano. Não passa um mês sem que ela me acione, e eu sempre cedo, tanta falta ela me faz. Ando tão fixado nela que venho achando sem graça transar com a namorada, ando frio na relação, e ela, triste, até já ameaçou acabar com tudo. Meus sócios também têm reclamado das ausências sem explicação. Não consigo tirar a morena da cabeça, está virando obsessão. Já tentei impor outro horário, outro lugar, uma viagem, tentar descobrir seu nome, a placa do carro (se é que tem, pois sempre que chego ela já está sentada no café me esperando), mas nada. Ela liga sempre para o escritório, não tenho como localizar a chamada. Como quem não quer nada, cheguei até a perguntar ao dono daquela fatídica festa, amicíssimo da minha namorada, quem era aquela morena, mas ele disse desconhecer, acha que ela veio com algum amigo de amigo.

Até agora, ninguém sabe que vivo essa história e esse conflito. Essa mulher é o meu maior e melhor segredo. E também a minha tortura. Mas um dia ainda saio dessa, ou enlouqueço, dominado de vez.