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segunda-feira, 22 de março de 2010

Repaginando


Eu não agüento mais
viver na incerteza
sentir tua frieza
a minha passividade
carinhos ocasionais

Não estou suportando
a lágrima na garganta
o teu jeito pilantra
coração espremido
beijo só vez em quando

Você quer cair fora
mas não acha jeito eu sei
então quem parte agora
sou eu, pode crer, sem drama
cada um no seu quadrado

Vou mais é me cuidar
um novo amor partilhar
alguém normal, com defeitos
mas sem amarguras no peito
mereço e vou encontrar

Então bye bye so long
e sem nenhum flash back.
só o que eu te peço é respeito
seja muito feliz
sem nenhum ressentimento
a gente se vê por aí

(*) Porta de renda em ferro, inspirada na obra de Robert Mapplethorpe

sábado, 19 de setembro de 2009

Um gostar distraído


Tarcísio gostava de Dinah. Não era por causa do seu jeito indireto, quase perpendicular de olhar. Não era pelos gestos contidos, pensados. Nem pelo jeito casual de se vestir. Mas talvez pelo que de sedutor ela escondia com a timidez, a cabeça baixa, a fala num fio, quase sussurrada, parecendo sempre meio assustada.


Gosto não se discute, e Tarcísio nem tentou descobrir a razão dessa atração absurda, nexo algum aparente. Foi-se apenas deixando levar pela garota de passos leves, que à sua maneira oscilante, ia-o conduzindo cada dia mais para dentro de seu mundo muito particular. E, como a maioria dos homens sofre de retardo emocional, Tarcísio não fugia à regra, por isso nem percebeu quando foi que aquele gostar cresceu a ponto de não conseguir mais nomear.


Já Dinah, ah a Dinah... por debaixo da aparência calma, do jeito meio sem jeito, essa sabia o que queria, e esse querer tinha um nome: Tarcísio. Sem os pendores próprios da beleza, ela tratou de cedo alimentar outros atributos bastante especiais, ainda que pouco valorizados: o ouvido, a compaixão, a paciência, a emoção sempre latente. Cercava-se de saberes e vivia rodeada de livros, por isso sempre tinha o que acrescentar ou forma de confortar a quem quer que precisasse ser escutado com atenção e carinho.


Quando conheceu Tarcísio, algo de muito estranho aconteceu. Era o homem de seu destino, mesmo que à primeira vista lhe parecesse um sonho absurdamente distante. E, como o Universo conspira a favor dos que desejam de forma tão arrebatada, ele foi se achegando e se envolvendo ainda que distraído. Dinah bem sabia que para ele era tudo apenas curiosidade. Por isso teve que aprender a desenvolver a calma, e não perder o controle com os esquecimentos, as traições e as dissimulações. Teve que aprender a fingir, e isso não era da sua natureza.


Enquanto isso, sem se aperceber, Tarcísio estava sendo enredado. Certo do domínio da situação e a porta de saída sempre aberta, ele abusava. Magoou tanto Dinah que, um dia, ela não aguentou mais e trancou as entradas. Bem que ele tentou se desculpar, prometeu até mudar. Descaso, para ela, era imperdoável. Era justo esse o seu limite.


Dizem que até hoje Tarcisio lamenta a perda daquela que nada lhe cobrou, muito lhe deu, a única que o fez feliz embora ele tenha custado a notar. Já Dinah, mesmo sofrendo a perda, seguiu o seu caminho.


E muitos não compreenderam quando, logo depois, ela começou a circular com Domingos, seu colega da faculdade. Tão tímido quanto ela, nada atraente, mas gentil e delicado, o rapaz foi seu abrigo e seu apoio naquelas horas difíceis. Ela até parecia mais bonita e segura de sí. Ficaram juntos por um tempo, fizeram planos. Até que o olhar enviesado de Dinah cruzou com o de Marcel, campeão de esporte, o gostosão da hora e só aberto a relacionamentos de superfície. E, de novo, ela caiu no conto do Homem de seu Destino. Tem gente que não aprende.


(*) " A menina no espelho", de Norman Rockwell, pintor e ilustrador norte-americano.

(**) Vai bem também ouvindo Maria Bethânia cantando "Grito de Alerta", de Gonzaguinha. Clique aqui.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Várias


Cidade doida, amalucada, tensa. Desde que o dia começou, minha Executiva deu ordens, fechou contratos, ganhou dinheiro, dedinhos em bolha espremidos no escarpin de salto alto. Fim da tarde, a da Qualidade de Vida reclama e pede um basta. Decido fugir dali, ver o raro verde, respirar. Saio andando e olhares cobiçosos vasculham minha Melancia. Tento abstrair, até que viro a primeira esquina e um doido, olhos esbugalhados, vê melões em mim. Salada de Fruta selfservice? É verão, um sol teimoso e fora de propósito faz arder a pele delicada Nenê. Doem as meninas dos meus olhos. Resolvo recolher, e a Moça do Tempo, a que insiste em sensatez se encolhe toda na ducha em chuva sobre este corpo inseguro, pressentindo trovoadas. Vem a Meiga tentando produzir calma e passa o creme devagarinho pelo corpo todo em suaves massagens carinho. A vontade é vestir calcinha branca folgada, meias soquete e um camisetão para quando ele chegar. Hoje bem que queria aconchego, colinho. No entanto, deixo a Atriz se achegar, ela puxa Pin Up arquivada no canto, então me enfio num conjuntinho mega, ultra, blaster sexy de lingerie e espero. Como sempre nos últimos tempos, ele atrasa. Espero. Espero. Isso já é abuso, está demorando demais. Quando, horas depois toca a campainha, mando a Mulher Bomba atender a porta.

(*) imagem descaradamente copiada do blog Gulodice, da jornalista e expert em delícias, que também não sabe o nome do autor da foto

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Reconciliação

Ei, tira o sapato

senta aqui do meu lado

vem cá

tou afim de um papo

bem regado

vai, toma um Martini gelado

Tantas noites em claro

desta vez eu destravo

acabo com o amargo

que não leva a nada

cavo e descavo tudo

o que de lindo temos no passado

Mudei de atitude,

acredita

amor que já foi obsessão

amor que se nutriu de escuridão

amor que chegou a devoção.

Não!

isso tá mais é parecendo

um boleirão

sem essa coisa chata

de discutir relação

afinal, o que passou já passou

teve lá sua razão

Estou decidida

vou virar a página

e esquecer a traição

afinal, ela foi morar no Japão

e eu estou bem aqui

vivinha da silva

tinindo

vem, se faz de meu gato

de novo

só você me faz ronronar.


(*) Vai bem ouvindo a canção "A Idade do Céu", de Paulinho Moska com ele mesmo. Clique aqui

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Sina


Não gosta dos dias em que sai de casa assim, espírito de caça nos gestos e no olhar, carência pontiaguda no coração. Mas sempre dá certo. Pode não ser nada importante que valha uma lembrança, mas é sempre um alivio pro corpo, alguma distração para ajudar a passar o tempo interminável dos sozinhos.

Foram horas no banho, tentando mandar pelo ralo tudo o que a afligia. Na frente do espelho, não havia maquiagem suficiente que trouxesse o viço, cor ou textura de outros tempos. Nem mesmo os olhos verdes, antes lagos serenos tão elogiados agora se destacavam mais, escondidos pelas pálpebras pesadas de álcool e noites de mágoa virando na cama. Para se garantir, ela não vacilou. Pegou o velho jeans surrado e colante, aquela blusinha generosa e chamativa, e para arrematar a sandália mais matadora, saltos finos e altíssimos.

Desde que o Agenor a abandonou há dois anos para viver com uma zinha qualquer, a funcionária pública dedicada, a dona de casa exemplar que vivia para agradar o marido e cuidar da casa e da família precisou rever sua vida, valores e medidas. Descrente de afetos sinceros, desde então mudou o guarda roupa, a cor do cabelo e a atitude, e se contenta com o fugaz até que surja alguém que a veja de verdade.

Sai tropeçando no salto e na auto estima até o bar mais próximo com a esperança de sempre. Sente um calafrio quando vê, no bar em frente, seu ex-marido bebendo com aquele seu grupo de amigos arruaceiros. Mas não dá bola para isso. Algo lhe diz que esta noite pode ser bem diferente

(*) Você pode ver um outro lado dessa história no conto "Viúva", de Petê Rissatti no blog Vermelho Carne. Clique aqui

A escultura acima, “Abandom” é de Camille Claudel, que sabia tudo sobre abandono

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Olhos rasgados


Ela não podia acreditar no que via, quando saía do transe e jogava o olhar para o sul de seu corpo. Aquele par de olhos quando fechados formavam uma perfeita linha reta, um risco em diagonal ascendente cravado num rosto anguloso. Esses olhos em traço ficavam especialmente lindos quando ele literalmente encaixava a face naquele vão, exato ponto onde suas pernas nasciam. Como num ritual, ela gostava sempre de deixar a luz a meia nessa hora só para realçar o brilho daquela pele bronzeada recobrindo músculos talhados pela natação e o esporte tocando a sua.

Perfeição. Essa a palavra. Êxtase, a sensação. Adoração, o sentimento. Um vivia para o outro em tal harmonia, que muitos duvidavam. Mesmo depois de tanto tempo juntos, ela não cansava de olhá-lo em todos os momentos, sobretudo naquele em que a fazia sentir-se mais querida, e então se ajeitava na cama, no sofá, tapete, rede, onde fosse, só para melhorar o ângulo e poder curtir um dos inúmeros prazeres de estar ao lado daquele homem que trouxe do Oriente mais que seus genes, uma magia.

Ele era tão perfeito e poderoso, que aquela mulher sempre dava um sorrisinho enigmático quando ouvia piadas sobre as dimensões dos japoneses. Se eles soubessem...


Óleo do expressionista Egon Schiele, que nasceu na Áustria em 1890, morreu aos 28 anos e incomodou muita gente.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Coração agalopado


Final de ano e a cidade ganha cor de vermelho, verde, prata, ouro e urgência. Sacolas guardando carinhos, pacotes prometendo abraços, fitas desenhando laços e amores, gente se prometendo mudanças. Arquitetagem de sonhos. Ninguém parece ligar para as filas, as listas, o congestionamento, os pedintes, o cansaço da balconista, a fúria do manobrista. Um novo ano virá e, com ele, os planos a realizar: pintar a casa, trocar o carro, mudar de bairro, voltar a estudar, emagrecer, perdoar, viajar, parar de fumar, mandar o chefe praquele lugar. E em doses cavalares beijar, amar, trepar com urro, a pele amaciar e o peito destravar.

Vésperas do Natal, noite alta, corpo esparramado no sofá, o pé com bolhas após um dia de compras, toca o celular. Do outro lado, uma voz velha conhecida mas há muito distante. E aí, como vai? Viva o Orkut, finalmente nos achamos de novo. E as palavras jorram, se atropelam e se enovelam. Tanto pra falar, tantos acontecimentos desde então. Saudade braba, ninguém disfarça. Coração agalopado, o pensamento voa veloz rumo a um tempo sem tempo, um parêntesis blindando uma história guardada no arquivo das lembranças eternas. Impossível não delirar e desejar lá no fundo: será que agora vai ser diferente?

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Menino Bonito


o que faço
com você agora
pacote mais lindo
(delícia)
que ainda está indo
enquanto eu já me recolho?
(saboreio)
tens razão, meu querido
relaxo e gozo!


(“A vida acontece sempre tarde demais” – frase de Herbert Quain, escritor irlandês “inventado” por Jorge Luis Borges, no conto “Exame da obra de Herbert Quain”)