quinta-feira, 19 de março de 2009

Eu também adoro pau mole

Meus dias andam corridos. Trabalho demais, tempo de menos, até mesmo para este blog. Mas isso não me impede de divagar. Dia destes li um artigo a respeito de uma escritora carioca que abalou o começo dos anos 2000 ao lançar o poema “Adoro pau mole”, logo transformado em hit.

Eu nunca tinha ouvido falar nessa autora, mas assim que li o poema me transformei em fã dessa garota que conseguiu registrar exatamente meu sentimento com relação a essa parte da anatomia masculina que, convenhamos, é bonita demais mesmo em estado de repouso, tímida ou acanhada. Afinal ela tem uma qualidade altamente invejada por nós mulheres: ela mexe!

"Adoro pau mole / pelo que ele expõe de vulnerável /
e pelo que encerra de possibilidade"

Inquieta e curiosa, fui pesquisar e descobri que a moça tem pedigree (é filha do cineasta Sérgio Rezende e da produtora Mariza Leão). Declama poemas em bares há alguns anos, mas só há três começou a produzir os seus, tendo já seu primeiro livro lançado, o “Substantivo Feminino” , que não classifica como erótica. Diz que é apenas um livro de poemas. Com prefácio de Elisa Lucinda, ele traz versos ousados, abordando o sexo de maneira clara, sem metáforas ou subterfúgios. Tenho que comprá-lo, concorda?

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Amo quente, chame que Bárbara atende


Disponível total. Sexo radical. Prazer incondicional. Prometo e realizo em domicilio, carro, motel, beco, banheiro, escada ou muro. Conjugo o verbo dar em todos os modos. E também o verbo comer em todas as declinações e dicções. Encaro fetiches, objetos, sandices. Faço o que querem, concretizo fantasias alheias. Quanto mais atravesso limites, mais esqueço do medo.

Cuido do corpo, faço dieta, malho, gasto com roupa. Gostosa full time, fumo bagulho, trago, engulo, bato fileira, bebo até o santo daime pra subir um patamar e agüentar quando a coisa não vai bem. Paciência, ossos desse ofício de carreira curta. Aos 29, tem hora que já penso em aposentar ou então agenciar, mas olho pro espelho e sinto que posso esticar uma noite a mais, um mês mais, outro ano talvez.

O meu prazer? O que? Você pergunta do meu prazer? Ah, isso não importa. Verdade, juro. Quando tou no expediente, quero mais é ver o cara delirar...ele, a mulher, o caso, e quem mais vier. Mesmo com o choro e o perigo por um triz, o que vale é a grana da paga no fim. Quem sabe me chamam outra vez, e outra vez, e assim vou fazendo a freguesia. Agenda cheia, telefone a mil, buceta dadeira, inchada e ralada, corpo vez por outra esfolado, roxo, cansado. É o que exige o Romão, e eu obedeço. Senão, o pau come, e não tou afim de apanhar mais do meu homem. Dele quero só que me coma gostoso, um papai/mamãe basiquinho, muito chamego, elogio no ouvido, mas também proteção e a certeza de ser a principal.

O que me mantém no jogo é a esperança de um príncipe se apaixonar e me carregar. Aí passo a borracha em tudo, viro esposinha exemplar. Ei, oh da reportagem, já vai embora? Tava gostando de, pela primeira vez, poder falar de mim. Vem cá, que dia vai passar na tv? Me avisa que tiro minha mãe de casa, mando pra igreja. Ela não pode saber.


(*) a imagem acima é do norte-americano Robert Mapplethorpe, que ficou famoso com sua série de fotos sensuais de flores, mas cujo trabalho vai muito além disso e até hoje sofre censura. Se quiser saber mais sobre ele, clique aqui
(**) Exercicio da Oficina de Textos Eróticos comandada pelo escritor Marcelino Freire, em que a idéia era desenvolver um conto a partir de um personagem criado por um colega para um anúncio de classificado. Esta Bárbara foi inicialmente imaginada por Mariana Zanetic, a quem agradeço a inspiração.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Rosário




Dispersão

Tentei chegar ao seu coração, juro, mas parei sempre nos primeiros degraus, boca, pele ou pau.


Incapacidade total

Com os olhos ele a desnudou, mas com o pau mole a vestiu.


Teclado

Sou modesta. Festa pra mim muitas vezes são só dois dedos de prazer.



Brincar disso

Você é um playground inteiro. Desde que te conheci não precisei mais trocar de joystick.


(*) exercício de minicontos da oficina "Escrevendo com Erotismo", comandada pelo grande escritor, especialista no assunto Marcelino Freire

(**) a obra acima é do austríaco Manfred Deix, fera na arte de caricaturar o absurdo



sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Várias


Cidade doida, amalucada, tensa. Desde que o dia começou, minha Executiva deu ordens, fechou contratos, ganhou dinheiro, dedinhos em bolha espremidos no escarpin de salto alto. Fim da tarde, a da Qualidade de Vida reclama e pede um basta. Decido fugir dali, ver o raro verde, respirar. Saio andando e olhares cobiçosos vasculham minha Melancia. Tento abstrair, até que viro a primeira esquina e um doido, olhos esbugalhados, vê melões em mim. Salada de Fruta selfservice? É verão, um sol teimoso e fora de propósito faz arder a pele delicada Nenê. Doem as meninas dos meus olhos. Resolvo recolher, e a Moça do Tempo, a que insiste em sensatez se encolhe toda na ducha em chuva sobre este corpo inseguro, pressentindo trovoadas. Vem a Meiga tentando produzir calma e passa o creme devagarinho pelo corpo todo em suaves massagens carinho. A vontade é vestir calcinha branca folgada, meias soquete e um camisetão para quando ele chegar. Hoje bem que queria aconchego, colinho. No entanto, deixo a Atriz se achegar, ela puxa Pin Up arquivada no canto, então me enfio num conjuntinho mega, ultra, blaster sexy de lingerie e espero. Como sempre nos últimos tempos, ele atrasa. Espero. Espero. Isso já é abuso, está demorando demais. Quando, horas depois toca a campainha, mando a Mulher Bomba atender a porta.

(*) imagem descaradamente copiada do blog Gulodice, da jornalista e expert em delícias, que também não sabe o nome do autor da foto

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Reconciliação

Ei, tira o sapato

senta aqui do meu lado

vem cá

tou afim de um papo

bem regado

vai, toma um Martini gelado

Tantas noites em claro

desta vez eu destravo

acabo com o amargo

que não leva a nada

cavo e descavo tudo

o que de lindo temos no passado

Mudei de atitude,

acredita

amor que já foi obsessão

amor que se nutriu de escuridão

amor que chegou a devoção.

Não!

isso tá mais é parecendo

um boleirão

sem essa coisa chata

de discutir relação

afinal, o que passou já passou

teve lá sua razão

Estou decidida

vou virar a página

e esquecer a traição

afinal, ela foi morar no Japão

e eu estou bem aqui

vivinha da silva

tinindo

vem, se faz de meu gato

de novo

só você me faz ronronar.


(*) Vai bem ouvindo a canção "A Idade do Céu", de Paulinho Moska com ele mesmo. Clique aqui

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Sina


Não gosta dos dias em que sai de casa assim, espírito de caça nos gestos e no olhar, carência pontiaguda no coração. Mas sempre dá certo. Pode não ser nada importante que valha uma lembrança, mas é sempre um alivio pro corpo, alguma distração para ajudar a passar o tempo interminável dos sozinhos.

Foram horas no banho, tentando mandar pelo ralo tudo o que a afligia. Na frente do espelho, não havia maquiagem suficiente que trouxesse o viço, cor ou textura de outros tempos. Nem mesmo os olhos verdes, antes lagos serenos tão elogiados agora se destacavam mais, escondidos pelas pálpebras pesadas de álcool e noites de mágoa virando na cama. Para se garantir, ela não vacilou. Pegou o velho jeans surrado e colante, aquela blusinha generosa e chamativa, e para arrematar a sandália mais matadora, saltos finos e altíssimos.

Desde que o Agenor a abandonou há dois anos para viver com uma zinha qualquer, a funcionária pública dedicada, a dona de casa exemplar que vivia para agradar o marido e cuidar da casa e da família precisou rever sua vida, valores e medidas. Descrente de afetos sinceros, desde então mudou o guarda roupa, a cor do cabelo e a atitude, e se contenta com o fugaz até que surja alguém que a veja de verdade.

Sai tropeçando no salto e na auto estima até o bar mais próximo com a esperança de sempre. Sente um calafrio quando vê, no bar em frente, seu ex-marido bebendo com aquele seu grupo de amigos arruaceiros. Mas não dá bola para isso. Algo lhe diz que esta noite pode ser bem diferente

(*) Você pode ver um outro lado dessa história no conto "Viúva", de Petê Rissatti no blog Vermelho Carne. Clique aqui

A escultura acima, “Abandom” é de Camille Claudel, que sabia tudo sobre abandono

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Olhos rasgados


Ela não podia acreditar no que via, quando saía do transe e jogava o olhar para o sul de seu corpo. Aquele par de olhos quando fechados formavam uma perfeita linha reta, um risco em diagonal ascendente cravado num rosto anguloso. Esses olhos em traço ficavam especialmente lindos quando ele literalmente encaixava a face naquele vão, exato ponto onde suas pernas nasciam. Como num ritual, ela gostava sempre de deixar a luz a meia nessa hora só para realçar o brilho daquela pele bronzeada recobrindo músculos talhados pela natação e o esporte tocando a sua.

Perfeição. Essa a palavra. Êxtase, a sensação. Adoração, o sentimento. Um vivia para o outro em tal harmonia, que muitos duvidavam. Mesmo depois de tanto tempo juntos, ela não cansava de olhá-lo em todos os momentos, sobretudo naquele em que a fazia sentir-se mais querida, e então se ajeitava na cama, no sofá, tapete, rede, onde fosse, só para melhorar o ângulo e poder curtir um dos inúmeros prazeres de estar ao lado daquele homem que trouxe do Oriente mais que seus genes, uma magia.

Ele era tão perfeito e poderoso, que aquela mulher sempre dava um sorrisinho enigmático quando ouvia piadas sobre as dimensões dos japoneses. Se eles soubessem...


Óleo do expressionista Egon Schiele, que nasceu na Áustria em 1890, morreu aos 28 anos e incomodou muita gente.