segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Escolho meus amigos não pela cor da pele





Loucos e Santos

"Escolho meus amigos não pela pele ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.
A mim não interessam os bons de espírito nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.
Quero os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo, quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.
Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto; e velhos, para que nunca tenham pressa.
Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que "normalidade" é uma ilusão imbecil e estéril."

Oscar Wilde


Se quiserem ver o Antonio Abujamra dando esse texto daquele seu jeito sempre visceralcliquem no link
http://youtu.be/HOyXnW16zbw

sábado, 28 de janeiro de 2012

A cagada do Pinheirinho




A desocupação do bairro do Pinheirinho tem sido assunto da midia nos últimos dias, e motivo de reflexão de todos. Mas em vez de tentar expressar toda a minha indignação, coloco aqui o link do blogue da Soninha, jornalista e ex-vereadora por São Paulo. Concordo totalmente com ela, para quem aquilo tudo é fruto de um conjunto de omissão, covardia e descaso das autoridades.



Pior é que existem pessoas que dizem: "Esses sem-teto, sem-terra, sem-nada são um bando de gente querendo se dar bem sem esforço". Coitados, blindados dentro de seus bens, eles só podem estar cegos.






Este é o primeiro de 4 posts dela sobre o assunto. Tente ler todos, ela vai fundo. E depois me diga o que pensou. Está aberto o debate.


(*) Foto de Sarah Moon, fotógrafa francesa nascida em 1941.


sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Mottainai!


2011 acaba amanhã e, baseados em antigas previsões, muitos dizem que tudo acabará em 2012. Será? Essa possibilidade tem tirado o sono de tanta gente, mas eu prefiro não perder tempo com esse tipo de coisa. Mas não posso evitar de ficar meio melancólica, sorumbática neste periodo, mesmo com toda a agitação das Festas.

Semana passada eu viajei, peguei a revista 29 horas (disponível nos principais aeroportos), guardei-a na mala, e só ontem consegui abri-la. E logo me deparei com matéria da minha amiga Chantal Brissac trazendo depoimentos de Lia Diskin, argentina que vive no Brasil desde 1971, quando ajudou a formar a Associação Palas Athena (que agencia e incuba projetos sociais e educacionais) e que está por trás de algumas das mais concretas e persistentes iniciativas pela paz e pela convivência entre as pessoas.

Nessa matéria, Lia reflete sobre a questão do consumo e como ele afeta o meio ambiente. Ela cita o grande pensador Confúcio que 2.500 anos atrás já dizia: "Nada é bastante para quem considera pouco o que é suficiente". Gandhi, por sua vez, sempre repetia: " Todo aquele que tem coisas de que não precisa é um ladrão", referindo-se ao fato de que, quando você guarda algo que não usa, automaticamente está impedindo que outra pessoa o utilize. Lia garante que, se Gandhi vivesse hoje, sua maior luta seria parar a onda desenfreada de consumo.

Ainda tem muita gente morrendo de fome no planeta, mas continuamos desperdiçando alimentos. Estamos caminhando para uma falta de água universal, e ainda assim nossos banhos são longos e as torneiras ficam abertas mais tempo do que deveriam. Produzimos lixo em quantidades absurdas e inconsequentes, seguimos trocando celulares e eletronicos sem real necessidade. É que talvez a nossa preocupação ainda não tenha se transformado em indignação.

Mas felizmente, embora de maneira lenta, as coisas estão mudando e muitos vêm trocando o individualismo pelo coletivo. E já tem jovens trocando carro pela bicicleta, viagens caras por temporadas de trabalho e troca de experiências em aldeias indígenas ou africanas ou ajudando a transformar seus bairros em ecobairros. Na Europa há até prédios adotando esquemas de eletrodomésticos e carros compartilhados.

Então, copio Lia Diskin e ecoo aqui a palavra japonesa
"Mottainai!" que significa "que desperdício!". Que ela seja a nossa guia e esteja na ponta da lingua para ser dividida e multiplicada. Só assim poderemos viver melhor, e sem culpas, o tempo que nos resta. Feliz 2012 e sempre.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Mil tsurus



Minha querida amiga, a Tereza Yamashita, está participando de uma exposição com a mostra com o nome sugestivo e meigo que vocês podem ver aqui encima. Nela, ela nos brinda com mil tsurus , aquele origami mais famoso no Japão e que representa essa ave tão sagrada para eles.

Além de autora de livros infantojuvenis fantásticos, Tereza é designer gráfica e origamista de mão cheia. Não deixe de passar lá para conferir a delicadeza de seu trabalho.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Bafinho ou bafão?



Roberto jamais soube porque o nosso caso não foi para frente. Trabalhávamos juntos, tinhamos o incentivo de todos os colegas, valores e histórias parecidos. Havia atração e éramos livres, por que não tentar? Certo dia, resolvemos conferir toda aquela cisma amorosa. E ele bem que tentou, coitado. Foi carinhoso e eficiente nas suas manobras, mas simplesmente não conseguiu me empolgar. Quem diz que mulher não broxa?



Até hoje lamento essa impossibilidade, mas não dava para ignorar um terceiro elemento que se interpôs entre nós: o cheiro que desprendia de seu corpo e de sua boca, intolerável para mim, e que se acentuava cada vez mais, conforme ele transpirava no esforço de me agradar. Cheguei a ter náuseas. Foi constrangedor.


Curioso é que, tempos depois, Roberto foi alvo da paixão de uma colega linda, poderosa e casada, com quem manteve um tórrido romance que durou anos. Para ela, decerto o cheiro do meu amigo era atraente. Ou seja, o que repulsa um, pode ser o mesmo que atrai outro.


Parecia que esse espisódio frustrante estava sepultado dentro de mim para sempre, até que, dia destes, ao ler a última revista piauí, o artigo "Delação anônima" me remeteu a ele direto, e sem escalas. Fala de uma recém inaugurada Associação Brasileira de Halitose - ABHA, voltada para atender pessoas que querem dizer a alguém que ele tem bafo, mas sentem-se constrangidas de fazê-lo pessoalmente. Assim, a "vítima" recebe uma carta-padrão em sua residência ou trabalho, cujo texto é algo como "Um amigo próximo a você solicitou que entrássemos em contato para alguns esclarecimentos". Cheio de dedos, o texto discorre sobre as causas e o diagnóstico do mau hálito e oferece ajuda para informar, esclarecer ou mesmo indicar um profissional qualificado, garantindo o anonimato de quem teve a iniciativa.


Refletindo aqui com meus botões, busco na memória aquela velha história com o Roberto e as diferentes reações que ele provocava, e isso me leva à seguinte pergunta: fora os casos confirmadamente patológicos, você não acha que muitas injustiças poderão ser cometidas a partir desse novo serviço de delação anônima? Até porque cheiro e olfato são definitivamente coisas muito pessoais. Mas, na dúvida, antes se jogar fisicamente numa conquista, não custa nada, antes, conferir o bafo.

Na dúvida, já avisei meus amigos, meu amor e os parentes: se um dia parecer que eu comi um rato podre, por favor, me chama num canto e me diga isso baixa, discreta e amorosamente... não envolva mais ninguém nesse vexame.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Caprichos do vento




O vento queria

levar embora lembranças

de todos os tipos

tanto boas como ingratas

as perdidas, indeléveis

e até as inventadas.

Isso não é coisa de amigo.



Pensava roubar

sem qualquer cerimônia

do que foi, a memória

pegadas, marcas e trilhas

enterrar corpos no mar

escrever novas cartilhas

aviltar toda a história



Tolo, isso é impossível!

O que foi tem seu peso e

razão de ter existido

Calar o povo não amansa

fica sempre a revolta

ou quem sabe, esperança

em todo o grupo oprimido



O vento é livre

tem seus caprichos

não precisa convite

invade tudo

muda dunas de lugar

apaga rastros

Mas a verdade impõe

irrefutáveis limites



escrito num dia de agosto de 2011, depois do abate sanguinário e misterioso de Bin Laden; dois meses depois, veio a queda e a fuga de Anuar Kadafi - que impôs 42 anos de sofrimento ao povo do Líbano, seguido de seu assassinato por civis (a mando sabe lá de quem).

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Migalhas






ali se vê
a gata no pulo
Alice vem
pisando no licito
sorrateira
mas Nice quer
e querer é
falta de escrúpulo
ausência de medo
um contentamento
poeira de afeto


(*) Arte de Tulipa Ruiz, a cantora que vem bombando em todo o Brasil, e que se expressa também com as cores e as formas.