— Não dá mais, você tanto tentou me mudar que fiquei defeituosa, preciso me recompor. — Foi só o que ela disse.
Epílogo. Som da porta fechando. Não adiantaram as súplicas, o desespero, a perda de dignidade, sequer o patético pedido de perdão por não conseguir ser outro além desse pobre esboço de gente. Chorei até desidratar a alma. Não sei quanto tempo fiquei assim, largado, com pena de mim. Até que, de repente, notei um fio de luz teimoso atravessando a veneziana riscando no chão uma listra de sol. Era um aviso: a vida continuava.lá fora. Dei por mim: há dias não comia, nem mudara a roupa, era um lixo remelento e fedido. Debaixo do chuveiro, me senti estranhamente diferente. Minha alma se fora com ela. Tinha que produzir outra. Quem sabe agora, uma alma mais leve capaz de suportar todo o peso que é amar de verdade.
Inspirado no filme “21 gramas” (2003), dirigido por Alejandro González Iñárritu.
Publicado na antologia "Blablablogue- Crônicas & Confissões (Terracota Editora (2009)







