quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Kafka é pouco




— Lamento não poder lhe dar o documento porque a senhora está desaparecida.
— Desaparecida? Como assim? Eu não estou aqui, meu filho?
— Aqui consta que alguém comunicou à policia o seu desaparecimento. Sendo assim, não posso lhe entregar o novo RG que solicitou.
— (Atônita e respirando fundo) Olha meu rapaz, eu sou eu, juro, estou aqui sã e forte, vim com minhas próprias pernas até este Poupatempo que dizem que, de tão eficiente parece coisa de primeiro mundo, pago as minhas contas, vivo nesta cidade desde que nasci e, que eu saiba, embora muitas vezes eu tenha desejado ardentemente, jamais desapareci assim, sem mais nem menos.
— Sei disso, estou vendo a senhora aqui na minha frente. Mas eu não posso fazer nada. A senhora deve se dirigir ao DHPP e ver o que está acontecendo, resolve tudo e então volta aqui — disse o rapaz no estilo funcionário público entediado, crachá ostensivo no peito.
— Isso é tão surreal que me soa como coisa do Kafka...
— Hã?
— Deixa pra lá. Só me dê o endereço direitinho e me ensine como chegar lá, por favor, moço.

Foi aí que lembrei que, justamente porque ia apenas pegar o novo RG, eu não tinha levado nenhum outro documento original na bolsa. Assim, precisei voltar para casa, pegar a minha velha identidade, tomar outro ônibus e me dirigir ao bairro da Luz. Quem mora em São Paulo entende o drama que isso representa devido ao entorno. Ah, detalhe: chegando no meu prédio, os caras da manutenção estavam consertando o elevador. Não acreditei: tive que subir (e descer) os nove andares na raça.
Descobri o ônibus certo e, chegando do outro lado da rua vi que o prédio era o da Polícia Federal. Gelei internamente. Gente da minha geração tem horror a tudo que se relaciona com polícia! Mas fazer o que? Puxei o ar, estufei o peito, me enchi de atitude e entrei. Piorou quando cheguei no andar que me indicaram. Ali uma placa explicava o que significa DHPP : Divisão de Proteção à Pessoa. Proteção?
Depois de circular pelo andar todo de corredores vazios, salas sem viva alma, vez por outra uma funcionária lixando as unhas ou papeando com a comadre pelo telefone (conta e salário que nós pagamos, claro) comecei a me perguntar: se tão pouca gente assim precisa se proteção para que tanto espaço? Até que finalmente me indicaram a Sala dos Desaparecidos. Era na verdade um conjunto de salas, todas vazias, mas vi que havia um rapaz lá no fundo numa sala às escuras. Sinistro. Só eu e ele por ali. Acenei, ele respondeu ao aceno e cinco minutos depois, finalmente ele se dignou a sair do escurinho (ele também bem escurinho, cabelo rasta) e veio me atender. Contei a história ao cavaleiro solitário que, ar simpático, logo foi digitando os meus números no computador.
— Humm, vejo aqui que tem um B.O de 1998... o que a senhora estava fazendo em 98? — me indagou, sério, ar austero.
— 98? Sei lá, já nem me lembro — respondi
— É, mas alguém declarou seu desaparecimento nessa data. Terá sido alguma viagem?
Segurei para não dar risada. Ele parecia aquelas videntes que ficam olhando para a bola de cristal, vêem coisas, vão disparando frases e pouco olham nos olhos da gente.
— Ora, eu viajo constantemente, meu trabalho me obriga. Vez por outra também saio em férias Mas, que eu saiba, ninguém jamais achou que eu tivesse sumido de vez.... Só se foi algum ex-namorado saudoso — aventei, sorrindo. Imagina só, eu fazendo gracinhas dentro da Polícia Federal. Agora, susto passado, nem eu mesmo acredito.
— Vai ver ele tava com medo que a senhora não voltasse — brincou.
Para encurtar a história, Alipio (esse o seu nome) descobriu que existe um homem em São Paulo, um tal de César Tertuliano não sei do que (eu achei o nome do caramba), que tem um número do RG idêntico ao meu, com a exceção de um “dígito X”. E foi o Tertuliano quem desapareceu naquela data, não eu. O sistema deve ter se confundido, sei lá.
Naquele momento, enquanto o rapaz lutava para tirar a tal informação do meu registro geral, divaguei um pouco ao observar como ele, um simples funcionário público de baixo escalão tinha acesso e o poder de modificar as coisas, colocar ou retirar observações de qualquer ficha documental, e como deve ser assim que a malandragem prolifera. Ah, o baixo clero (vide o episódio recente do vazamento do imposto de renda de alguns tucanos). Poxa, não seria bacana também se Receita Federal também me desse por desaparecida, quanto imposto eu poderia ter economizado esse tempo todo?
Depois de alguns minutos totalmente em silêncio, apenas teclando, Alipio disse:
— Pronto, baixei a informação do sistema. Mas ainda consta aqui que em 2001 seu RG foi extraviado...
— Ah, sim, foi quando me furtaram a carteira, mas na época fiz B.O e tirei um novo — respondi pensando “caramba, esses caras sabem de tudo” — Mas isso pode atrapalhar, moço?
— Acredito que não. Acho que o Poupatempo lhe entregará o documento na hora.
— Poxa, muito obrigado — agradeci com um aperto sincero de mão.
—Agora namorado nenhum mais seu pode dizer que não a encontrou — respondeu Alipio, mostrando que tinha aderido à brincadeira.
Saí da Luz aliviada, me enfiei nas entranhas do metrô, ressurgi para a vida na superfície da estação Sé ensolarada, certa de que eu não estava mais na lista dos desaparecidos desta nação. Retornei ao Poupatempo e, em 40 minutos, saía de lá com meu RG fresquinho, foto recente revelando novas rugas que para mim são a comprovação que o tempo passa, mas Macunaíma continua rei por aqui.


PS: Ah, nada a ver, mas só pra constar, fui pesquisar e descobri que Tertuliano
nasceu de família pagã, e tornou-se um líder cristão rebelado que criou sua
própria religião por volta do ano 200 d.C . E provocou muita polêmica por
desmentir algumas crenças, entre elas a virgindade de Maria. É mole?

10 comentários:

Marcelo Maluf disse...

Genial, querida! Que momento lindo. Que texto primoroso! Estou convencido de que a ficção está longe de superar o absurdo da realidade. Lembrei de cronistas como o Sabino...Isso que é ressureição...é um bom sinal para o início do ano! Fênix! Salve! Abraço grande!

denize muller disse...

Paixão,,
Apesar das arguras, pegar ônibus em Sampa, com chuva.É privilégio viver isso, pois em mãos que escrevem, isso vira ouro.

Prensada disse...

Praticamente nasceu de novo !
Risos.
Que história !

Laura Fuentes disse...

Menino Malufinho, Denise e Prensada, que delicia saber que me leram e que se divertiram com a crônica. Isso é que é estimulo!

Brontops Baruq disse...

Laura, você disse que isto parecia surreal.

Surreal seria se dessem um RG do Tertuliano ao invés do seu e assim que saísse do Poupatempo, você estaria transformada em Tertuliano. Ao invés de pegar o metrô pra sua casa, não. Pegaria o busão lá no Terminal Parque D.Pedro. Desceria nos cafundós da Avenida Sapopemba. Caminharia catorze minutos e doze segundos até chegar diante de um portão enferrujado e cheio de lanças. Um cão velho começaria a latir, mas parava de repente. Vinha lamber seus dedos grossos pelas frestas da grade. Alguém de dentro da casa abre a janela. A mulher gritaria um ocupado "Pois não?" Tertuliano hesitava.

Ela estreitaria os olhos, até o reconhecer. Susto; de tão pálida que ficou, tombou, sumindo sob o palco de marionetes. Você sentiria um medo súbito, mas não inédito: como de outras vezes, melhor escapar.

Você jogava o RG na calçada e sumia depois da esquina, não sei mais se Laura, Nanete ou Tertuliano, o homem que disse que a virgem não era virgem.

A mulher saía da casa, aos prantos, entre raiva e saudade, um lugar no meio de tudo. Procuraria Tertuliano, mas encontraria só desencontros e um RG novinho largado numa fresta no concreto sobre o mato que rebenta calçada.

Bjk

Tiago Araújo disse...

Nana adorei o texto. Concordo com o Malufinho, com a Dê e, principalmente, com o Bronts que captou a insanidade do teu insano momento! Interação do cacete! Coisa dos de Segunda, eu diria.

Ótimos são seus olhos de farol
pousados no mundo insano
transitando na Luz, não no sol
se fundindo com um tal Tertuliano.

Parabéns!

Anônimo disse...

LAURA, realmente KAFKA.

E vc, ÓTIMA.

Beijo

José Santana Filho/Crônicas e Reflexões

Claudia disse...

Laurinha, amei o texto. Mas, olha, pelo menos você só desapareceu. Tenho uma conhecida que morreu. Por sorte dela, o atendente não acreditava em fantasmas e a "reaviveu". *rs*
Um beijão,
Claudia

Laila Guilherme disse...

Que delícia! Conseguiu transformar um capítulo inusitado em um primoroso e envolvente conto!

É por essas que outras que a gente se pergunta: pra que existem CPF, nome da mãe e, claro, os tais dígitos do próprio RG? Daí se vê que pra nada, já que tal pessoa sequer era homônima ou do mesmo sexo! Diga a verdade, tava com esperança que algum fã oculto estivesse à sua procura!

Pois é, além da Receita Federal, alguns bancos e instituições poderiam nos considerar desaparecidos, também, pra não cobrar certas contas...

grande beijo!

Laila Guilherme disse...

Que delícia! Conseguiu transformar um capítulo inusitado em um primoroso e envolvente conto!

É por essas que outras que a gente se pergunta: pra que existem CPF, nome da mãe e, claro, os tais dígitos do próprio RG? Daí se vê que pra nada, já que tal pessoa sequer era homônima ou do mesmo sexo! Diga a verdade, tava com esperança que algum fã oculto estivesse à sua procura!

Pois é, além da Receita Federal, alguns bancos e instituições poderiam nos considerar desaparecidos, também, pra não cobrar certas contas...

grande beijo!