sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

A incrível arte de Mister Nose


Sei que sou um anormal. Um desclassificado. Afinal, como nomear alguém cujo prazer maior vem de um sentido exacerbado: o do olfato. Não tenho claro como isso começou, mas guardo a imagem de, muito pequeno ainda, me enfiar por debaixo da mesa para espiar entre as pernas da tia Izaura. Mas não era a visão daquelas canelas finas cobertas por meias grossas presas às coxas por um elástico rendado, nem o pedaço de carne muito branca e macia que se estendia até a virilha, e sim o cheiro que dela se desprendia que me deixava literalmente aturdido.

Esse prazer secreto nunca parou. Nas brincadeiras de infância, adorava o pega-pega com as meninas só para, no fim, sentir o aroma molhado de seus cabelos e pele. Já no ginásio, dava sempre jeito de ficar na porta do vestiário vendo-as entrar pingando após o jogo de vôlei. E assim fui crescendo, sentindo essa estranha atração por cheiro de mulher, mas com receio de parecer bizarro, nunca pude falar disso com ninguém.

Já adolescente, notei que beijos e amassos só me excitavam realmente se trouxessem algo mais. E então sofistiquei o método: passei a aparecer sem aviso, bem quando a namorada ajudava a mãe na faxina da casa. Com alguma lábia dava um jeito de levá-la até um canto mais escondido e, mesmo à luz do dia, prensava-a na parede num abraço intenso e desajeitado, enfiando o nariz na axila e a mão curiosa por dentro da sua calcinha e a bolinava um pouco. Envergonhada por ter sido surpreendida tão desarrumada, assustada com a abordagem, excitada e, ao mesmo tempo temerosa da mãe nos flagrar, a garota acabava transpirando e umedecendo a xoxota mais ainda, o que para mim era um verdadeiro delírio. Quase explodindo de desejo, eu saía de lá voando para o meu quarto, onde ficava cheirando minha mão por horas, enquanto me masturbava repetidamente até quase desfalecer.

Tive muitas namoradas, e elas nunca entenderam como à noite, quando se arrumavam para sairmos, eu não parecia tão atraído. De todas, a que gostei mais foi Madalena, cujo aroma delicioso recendia a bicho. Já quase terminando a faculdade, e apaixonado, tentei me abrir, explicando o quanto gostava de seu cheiro natural, mas Madalena relutava. Acreditei que cederia um dia, chegamos a nos casar, mas ela nunca me compreendeu. Com o tempo, foi ficando mais e mais incomodada com meus estranhos pedidos, e cheia de pudores, passou a me rejeitar chamando-me de tarado.

O casamento durou pouco, é óbvio. Desde então, aprimorei o fetiche, o olfato e as escolhas. Aceitei que não posso prescindir do cheiro intenso de uma fêmea, e por isso faço o que for para conseguir parceiras, até a submissão se for preciso. Inscrevi-me num clube de sadomasoquistas e por lá tenho encontrado algumas mulheres bem interessantes que aceitam fazer sexo nas minhas condições: que não tomem banho, não usem perfume, sequer desodorante, não se depilem e nem troquem de calcinha 24 horas antes do nosso encontro. Uma vez no ato, elas logo percebem que eu literalmente perco qualquer traço de razão quando enfio o rosto numa boceta peluda e suada, transformando-me num animal dócil, absolutamente servil. Em troca, aceito tapas, ordens o que for. E as trato tal como divindades, dando-lhes com meu pau, boca, língua e dedos o prazer máximo, até que me peçam para parar de tão satisfeitas. É quase como que amor.

Infelizmente, ainda não consegui unir esse prazer específico com um relacionamento afetivo e duradouro. Mas ainda tenho fé de encontrar minha alma gêmea. Contudo ela terá que vir naturalmente. Afinal, não posso sair por aí perguntando àquelas que me atraem: você gostaria de se mostrar mulher de verdade?

(*) A arte acima é do alemão Rudi Hurzlmeier, de 2007, e faz parte do acervo do Museu de Caricaturas Eróticas de Viena, na Áustria

7 comentários:

Petê disse...

Que sacada ótima, Laurinha. O cheiro. Me lembra "O Perfume", do Süskind, o qual já comentamos. Cheiro é uma coisa que ninguém escapa, não é mesmo.

Delicioso o texto...

Olga disse...

Laura, prendi a respiração!Literalmente! Concordo com o Petê, também me lembrei de "O Perfume" e o olfato é realmente um dos sentidos mais ligados à nossa memória e gostos, sem falar do paladar, já que sem olfato também falha esse outro sentido. Seu texto também me recorda a passagem lida pelo professor Jonas do livro Acenos e Afagos do Noll, literatura de primeira, impactante, que não deixa o leitor igual ao final do livro. Mais uma de Laura com classe, sabor e erotismo na medida! Abraços,
Olga.

Claudia disse...

Também lembrei de "O Perfume".

Laurinha, o texto está excelente. Muito fluído, contagiante, claro, profundo. Muito bom, mesmo.

E nós gastamos tanto dinheiro em perfume francês.

Um beijão.

Marcos disse...

Meio afastado dos blogs, só agora cheguei aqui. Ainda bem que cheguei. Estava com a idéia de um conto justamente sobre o olfato do personagem que a tudo identificava por ele. Terminei de desistir.

Deise disse...

Olá Laura, adorei o texto, interessante como nossos sentidos mexem com os instintos mais primitivos.
O que mais gosto é saber desses pormenores sobr gostos, taras e preferências das pessoas, coisas que costumam não contar por medo ou constrangimento. Adoro...
Tenha uma linda semana. bjs

MP disse...

Eu confesso que os cheiros e aromas têm grande importância para mim na hora do sexo. Apesar de existirem ótimos perfumes, nenhum supera o cheiro natutal da pele da mulher, o suor na hora do sexo junto com a língua molhada e salgada depois de um bom exercício aeróbico...

Marco Antonio disse...

Laura!

Delicia de texto! Ah! os cheiros que as mulheres exalam!!!!