quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Olhos rasgados


Ela não podia acreditar no que via, quando saía do transe e jogava o olhar para o sul de seu corpo. Aquele par de olhos quando fechados formavam uma perfeita linha reta, um risco em diagonal ascendente cravado num rosto anguloso. Esses olhos em traço ficavam especialmente lindos quando ele literalmente encaixava a face naquele vão, exato ponto onde suas pernas nasciam. Como num ritual, ela gostava sempre de deixar a luz a meia nessa hora só para realçar o brilho daquela pele bronzeada recobrindo músculos talhados pela natação e o esporte tocando a sua.

Perfeição. Essa a palavra. Êxtase, a sensação. Adoração, o sentimento. Um vivia para o outro em tal harmonia, que muitos duvidavam. Mesmo depois de tanto tempo juntos, ela não cansava de olhá-lo em todos os momentos, sobretudo naquele em que a fazia sentir-se mais querida, e então se ajeitava na cama, no sofá, tapete, rede, onde fosse, só para melhorar o ângulo e poder curtir um dos inúmeros prazeres de estar ao lado daquele homem que trouxe do Oriente mais que seus genes, uma magia.

Ele era tão perfeito e poderoso, que aquela mulher sempre dava um sorrisinho enigmático quando ouvia piadas sobre as dimensões dos japoneses. Se eles soubessem...


Óleo do expressionista Egon Schiele, que nasceu na Áustria em 1890, morreu aos 28 anos e incomodou muita gente.

9 comentários:

Gaby Almeida disse...

Queria um homem assim... não exatamente assim, mas que me fizesse sentir algo diferente do que ja senti....

Gaby Almeida disse...

obg pela visita no meu blog...
será sempre bem vinda...
bjusssssssss

JULIO CARVALHO disse...

e por onde anda vc?
precisamos nos ver...

Olga disse...

Laura é sempre um prazer ler seus textos. Neste você vai jogando aos poucos com o erotismo e entregando não só a sintonia entre os personagens, mas a deliciosa malícia da cumplicidade entre eles. Só para checar, sua descrição me lembrou do personagem e do ator do filme O Amante, baseado no livro de Margherite Duras. Você assistiu? Vale a pena!Beijos!

Petê disse...

Laura, Laura... o que uma conversa com espetinhos picantes não provoca nessa escritora, hein? A delícia desse texto, de verdades e delícias, só pode ser entendido por alguém que desfruta a vida do jeitinho que deve ser. Beijos.

Anônimo disse...

"Aprendi com as primaveras a me deixar cortar
para poder voltar inteiro"
(Cecília Meirelles)


Laura Fuente

Obrigado por me possibilitar estas deliciosas leituras, madrugada solitária e doída, ouvindo o trombone do Raul de Souza na TV Cult. Agora entendo pq a Soninha N faz pose, fala de Vc. do jeito q fala e agora, no aparente preâmbulo de nosso caso (digo, meu e dela), pede q Vc. cobre algum pertence q comprou de um amigo para presentear seu filho Pablo. Nem Freud explica, nem Lacan, nem o Jacob.

Fiz passagem rápida pelo seu blogspot, gostei e vou retornar, para fazer jus ao convite. Mas digo-lhe, de cara, q gostei do que li, gostei do q vi, do q intuí. Pq eu, cara Nanete, sou pura intuição, além de outras impurezas e defeitos q admito possuir.

Acho seus textos mesclas de um erotismo sutil de Nais Nim, com uma Henry Miller, mas creio q Vc tem algo de Cassandra Rios e Adelaide Carraro, ícones do texto erótico brasileiro dos anos 70, desprezadas e mal compreendidas. Se não leu, acho q devia ler.

Como disse, volto ao Instintos da Carne para ler com prazer suas shorthistories e espero q agora, livre de nebulosidades e más interferências, consiga conhecer uma produção literária q valha a pena.

Parabéns pela produção, pela intensidade e teor de seus textos e, sinceramente, meus votos de sucesso nesta e em outras empreitadas.

Com meus cumprimentos.

Paulinho K


Obs.: Entre tantos prazeres gostei de “A Incrível Arte de Mr. Nose”

Karen Cunha disse...

gente, já é a terceira vez que alguém entra no assunto japoneses nessa semana.
Tô achando que deve haver uma explicação pra isso, não?

De todo modo, lembro dessa sensação de ficar olhando alguém durante o sono e pensar: nossa, o que será que fiz de tão bom para merecer tudo isso. O que será que vão me pedir em troca?

JULIO CARVALHO disse...

"Preciso aprender a amar a tola que existe em mim – a que sente muito, fala muito, tenta muito, a que às vezes ganha e frequentemente perde, a que não sabe se controlar, que ama e odeia, fere e é ferida, promete e não cumpre, ri bastante e chora, como chora."
http://www.namoradoimaginario.com

Claudia disse...

Laurinha, amei esse texto. Parabéns. Nem preciso me alongar, olha quantos comentários.
Um beijão,
Claudia